terça-feira, 29 de dezembro de 2009

teu cromossomo y

O que teu sorriso faz nesse rosto que não é teu? Me diz. Devias ter patenteado esse sorriso jovem que tu tens, de 28 dentes alvamente lisos - os sisos extraídos já, te dizendo adulto, o que és só em idade. Mas esse sorriso me invade o ônibus e sorrio-resposta como te faço. Para disfarçar o medo, peço a parada ao cobrador; pergunto as horas ao menino ao lado; me ofereço para segurar as frutas da senhora que me empurra com a coxa e me massacra com a sacola do Zaffari ainda cheirando a plástico novo. não, obrigada, ela diz com voz de receio que eu roube suas maçãs. seus frutos proibidos meticulosamente etiquetadis um a um para que em nada lembrem o pecado original. De repente acho que amo aquela mulher que sente repulsa por eu estar escrevendo em um ônibus; e a amo pelo único motivo que ela não carrega teu sorriso - não há sorriso algum naquele rosto pobre, surrado de vida, que deve manter na boca bem menos que teus 14 pares de dentes; a amo por saber que aqueles cabelos castanhos nunca serão como os teus: negros
negros
negros; que a pele castanha não será a tua, ainda alva de inverno; que o olho verde não será o teu, infinito profundo, buraco negro
(negro,
negro)
E a amo mais que tudo por não carregar teu sexo, teu cromossomo Y que sempre persegui; amo e sei que amo pelo simples fato de que quero carregar sua sacola repleta de maças e tomates e um provável mamão, para a digestão. Amo como a um menino órfão, por quem só sinto amor pelo fato de ignorar sua existência. Amo porque falta teu sorriso, e sem teu sorriso não haverá amor.

sábado, 26 de dezembro de 2009

malena



las copas de celos, las he bebido una a una con el orgullo herido por tus miradas torpes.

pobres hambrientos, los dos que no supimos vivir juntos,

ni bailar el mismo tango.

besabas despacio mi cuello mientras el Lago escribía con la línea del viento frío

lo que no deseábamos leer en nuestra historia.



ahora,

pasado un año,

no dibujo mi cuerpo en tus lentes y no me escuchas cantando lamentos.

vuelvo al sur como se vuelve siempre al amor, mi amor.

pero no volveré a vos,

porque el movimiento nutre el mundo y el mundo me nutre a mí.






(entonces le hecha una tierna mirada, le besa la mejilla derecha y sigue por la acera hacia la plaza, en la madrugada poblada solamente por gendarmes, nadie más)




VOZ EN OFF:

Malena cantaba el tango con voz quebrada y en cada verso, dícen, ponía su corazón. Imposible el recto de fotografiar en larga exposición el tono triste que salía de su boca sin tocarla.
El tango siempre se pierde en desencuentros, ya deberías haberte acostumbrado, señor director!

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

when you are around
it’s almost rational
i loose myself pretending you’re like the others


when you are around
words can’t say what they mean
it’s like the rain droping over our fears all evening


when you are around
i would like to make you stay
closer, and keep you near so we could see each other often
(as if we were neighbours)


we should never get away
no more hurting and tears

love is all i know as real
and i adore you so, dear

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Suicidade

Ela acordou com os passantes trombando no seu assento. (barulho de batidas de carro, freadas bruscas, gritos, sirenes)
Acordou e não reconhecia a luz do dia daquele lugar. Olhou acima estava no 13B, corredor. Não sabia como estacionara ali, naquele ônibus de linha interior-capital falida.
O cobrador, percebendo o buraco em seu chão, tratou de escavar ainda mais. Disse: "ele desceu no km 52". Mas, pensara ela: "ele quem?"
Não tinha bolsa, não tinha um rg. Teria tido uma festa de 15 anos? (uma valsa)
Se apalpou. Tinha peito voluptoso. Seria depois de uma cirurgia?
O cobrador pediu que descesse. queria ver até onde ia aquela falta de história...
ela tropeçou na escadaria do ônibus. lá tbm tinha um buraco
bateu com a cara num sapato, um scarpin vermelho. ele a pisoteou. e saiu.
aquela pessoa só estava alí para pisá-la. não disse nada, mas a humilhou
depois disso, sentiu um tridente cortando lhe a pureza. era escala pro inferno. seu inferno particular.
sentiu um cheiro de perfume mediano. podia ser o dele. era lavanda. como odiava lavanda agora. o homem com seu cheiro lhe abandonara rumo ao fim da linha. talvez ele seria alguem lhe fazendo um favor, pra que ela recomeçasse uma vida nova. E um senhor que ia passando, cantava: "ele te queria para o mundo".
Então, ela fez aquilo que o seu corpo lhe pediu. se ofereceu numa esquina. para os carros, mas eles a transpassavam. e seu corpo ficava turvo e evaporava". nada ia ser mesmo fácil. saiu andando ao relento de um sol cortante. começava a lembrar...
lavava parabrisas de caminhões em posto beira-estrada e sujava a alma oferecendo um pacote maldito. a concorrência. era ela quem persuadia seus valores. ficaram caros e imorais.
em um desses favores, pediu passagem pra lugar algum. estava lá então.
bem lá perto da rodoviária, descobriu, tinha um viaduto bem alto que fazia corpos despencarem de uma distância bem grande e irem de encontro a carros em alta velocidade, sem tempo para pestanejar. Matavam mesmo.
a sua sorte foi estar perto dele. era tão sedentária, não aguentava andar muito. caminhou um pouco, pulou. e a partir dai, pulou pra sempre, morreu sempre.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

the smallest bird

Tão jovem
para saber apenas
que o amor deve durar

e os dias
se prolongarem
em emoções além das horas

sem arrastar
as confusões deste mundo


Tão menina
e canta só amor
com toda a certeza
de encher o peito

o mesmo ar
(compartilhado

que se move
e alimenta

o que existe
por estar
aqui)


Tão corajosa
é toda entrega
encara sem medo


o sopro

o brilho

a força

de estar viva

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

de uma conversa

eu, só sede de álcool, já me preparando para substituir por um chá qualquer. parece que a chuva da rua entrou em casa, não inundando o chão, porque enxugada por mim. éramos cinzas, ambos. mas hoje eu não tinha fome de vida, apenas a ânsia de cerveja, que me lembrou aqueles nossos dias em buenos aires - confesso que não pela tua presença que parece não haver na memória, mas pela cerveja que bebemos naquele bar da recoleta com os militares americanos que matavam crianças na colômbia e nas férias bebiam cerveja de mel com brasileiras mais loiras que suas conterrâneas, deixando a consciência naqueles copos, falando baixo e rindo alto. a saudade, só da cerveja que não encontro nas ruas brasileiras, nos bares caros, nas casas do ramo e sequer em nosso supermercado tão nosso.

não sei mesmo porque digo isso, não gosto daquela cidade, apenas de sua cerveja de mel. e não gosto daqueles americanos, apenas de sua capacidade de esquecer, seéqueesquecem, eu penso.

ali fora, a chuva permanece e não há cerveja na geladeira, minha alma seca (leia-a como quiser sÉca, sÊca, tanto faz). não me diga que ainda é sexta-feira, passa da meia noite e vou tentar acreditar que amanhã - que amanhã bem cedo - o barulho de chuva me abandona. serei apenas cevada e lúpulo.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009


seus cigarros alongavam pulmões e bocas aumentadas
Lábios cinzentos e pulmões que emitiam raios laser
Bruno me acordara em um domingo aviasndo-me de nossa irmandade
Tinha um pacto suspenso e um sangue flutuante que escorria dos meus cabelos
dentes mastigavam livros e frases como ' posso finfgir de todos mas nao posso fugir mde mim"
posso me despistar quando placas sinalizam pássaros de ouvidos pra bocas
borras impetradas a cada revogação de liminar
era dele toda a forma de anoitecer sombras
também tinha o habeas corpus de galos que cantavam à meia-noite
de garrafas pet brotavam flores e de flores nasciam promessas
Promisses retornáveis
demoro
vai se fú
nem, se eu tivesse dois cus
então isso aqui vai pros anais
éramos três e vc se lembra
lembro daquele momento endemoniado
daquele minuto em que meu corpo vestia outra pessoa
até que o apanhador de carrapichos apareceu.
você sempre usava broches de capim e falava de coisas naturais





Elas já se emaranhavam por lá nos anos 30. Faziam sexo por idiomas. Na Conde Laje também estavam elas. Brazucas com libido na agulha, prontas pra atirar. Pra acomodar o sangue dilatado, esvaziavam o corredor. Tinha mormaço saindo de um corpo agachado. Melhor se tivesse alguém mirando






Ela se levanta e rebola para ajeitar o vestido, mas isso o mendigo que dorme na calçada em frente não vê. Só tem seus pés devidamente erguidos no chão como horizonte. Mi Re Fátriz fica lânguida com os pés agora. Seca a boca com a calcinha. 




 


me deita o lixo pela boca e arranca a calcinha como quem não tem assunto nos olhos.
emprestei meu  peito a pássaros.

o deserto, meo, aumentou em proporções matinais.


 


apertou meu sexo como se fizesse carinho cognitivo bentevi.

olhei de lado assim acima.
e questionei seu desejo que só me eternizava numa polaroide.
éramos pedaços incompletos de fios de cabelos
que caíam de nuvens carregadas.
então eu deixava uma chuva de vermelho mi ré fatriz.
 


p
ut
o
da
cara



Eu suei abaixo. Me sequei pra me sentir limpa. Mas eu tinha consciência de geleira em pleno aquecimento universal. Meu mar corria pra rios, pra córregos, pra cócegas que me humilhavam porque minhas águas eram lamaçais, manguezais, pantanais de tanto lixo, de tanto luxo, de tanta luxúria pobre da Conde de Laje. E eu que aqui escrevo. Nunca estive lá, Mas posso martelar dores da easy life que é vermelha, que é sim quente, que tem sim líquido escorrendo das bocas... que não tem ninguém. Que está à mercê de um gringo qualquer. 




terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Evitou tocar o caderno por alguns dias.
Mas as palavras no peito aos sábios ensinam
sobre as cores, o olhar.

Então voltou, pediu para abrir
a janela
e empostou a voz de pássaro

que entende o ar.


Pequeno vagan aprendera o mimo de voar
e voltara
para a primavera do riso
e os cochilos na rede
azul

da sacada
entre os céus.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

INELUDÍVEL



pOR vICTOR mELONI

A saudade era intensa. Provocava aquela dor característica, que pressiona de dentro para fora, resultando numa angustia indelével. Por quanto tempo? Quem é que sabe dizê-lo...Noites em claro, dias absorta nas águas calmas, mas aflitivas, desta sensação cruciante. Conversava contigo em todos os meus momentos de solidão. E eram muitos, pois as companhias não preenchiam o vazio provocado. Tu foste aos poucos, mas assim mesmo não consegui me preparar. Acho que ninguém o consegue. Quando o paroxismo da dor chegou, naquela madrugada fria, sem teu calor, busquei o desespero e encontrei-o facilmente. Exortou-me, vesano, lógico, a alcançar aquela peça macia, que tu adoravas, e colocá-la sob o travesseiro que rescindia, ainda, tua essência. Dobrei-a com esmero e a pus embaixo deste. Encostei a cabeça, plena de anseios e esperanças, fechei os olhos e pedi. Fervorosamente pedi. Implorei com a força dos corações feridos. Adormeci. Acordei com um sopro calmo em meu rosto. A fragrância adocicada fez com que um laivo de satisfação fosse expresso em meus lábios. Abri os olhos e você estava lá, em pé, curvado sobre meu corpo hirto. Mas seu sorriso! Seus olhos! Não, não era para ser assim! O que está fazendo? Pare com isto! Não! Não fui culpada! O quê? Como descobriu? Não foi importante! É você quem amo! Tire este sorriso do rosto! Por que estes olhos? Como? Estava esperando? Não! O que eu fiz? Meu Deus! A dor do rancor é imperscrutável. Em nosso egoísmo, esquecemos que a paixão do outro também sofre de saudade.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

.première.


Emoldurou uma ou outra imagem na memória e partiu. Antes de mais nada, partiu-se em dous. Quebrado, sem escrúpulos e esperanças falsas, partiu rumo a algum ateliê cujas obras estavam incompletas. Queria ser tinta e tela, esboço e nanquim. Manchou o percurso com esmero, olhar atento aos detalhes. Passos cansados, com o peso de um envelhecimento precoce e pueril. Curvado em sua insignificância cotidiana. O olhar adjetivado percorria cada centímetro cinza, cada curva jeitosa que lhe passava perfumada. Mas era tudo muito sem graça. Sentia-se num filme mudo sem trilha sonora, apenas os ruídos desnecessários marcando o tempo quadrado, o quatro por quatro que o incomodava tanto. Sete por oito que era, queria explorar novos andamentos, mas perdera o rumo. Não havia volta mais para aquelas imagens devidamente eternizadas em sua memória que estavam fadadas a mofarem, a ficarem devidamente empoeiradas. Toda a composição, as cores dodecafônicas... O inconsciente o enganava a todo instante: piadas disso e daquilo, saudades deste e daquela. Quando menos esperava, caía nas curvas lascivas de cor morena, no olhar bonito e inebriante de quem faz malabares com o sorriso. Sabia que quando menos esperasse, por descuido ou excessiva saudade, iria relembrar fatos para sentir falta de ar ou ter uma vontade qualquer de chorar.

Com o olhar perdido em algum ponto de fuga, procurava sempre a linha do horizonte para iniciar novos traços, mas voltava sempre ao mesmo debuxo, ao mesmo pontilhado que trança o pensamento e costura de forma aleatória todas as lembranças. Estas, como é cediço, são assim mesmo: dispostas de tal maneira que é impossível criar um filme lógico. A edição é precária, ainda mais quando se sente tamanha saudade ou dor de cotovelo ou de cabeça ou unha encravada.

O lançamento vai ser eternamente adiado. Quem sabe cancele todo o projeto de première. Talvez nem versão pirata tenha. aspasFracassoaspas, conclui sinceramente a si mesmo.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

No Porn

Eu sentei em seu membro vagarosamente e deixei que ele me invadisse, aos poucos. Sentia cada centímetro me namorando, me machucando. Sentia, e apenas sentir me era válido. A cada estocada recebida meu rosto se contorcia em sorrisos, que hora eram banhados por lágrimas lascivas, ora pelo suor de todos os sóis. Ele me invadia continuamente, entrava e saía de mim como se eu não me pertencesse mais; porém isso só já não me bastava. Agora eu necessitava arranhões, mordidas, feridas.

Adiante, vieram as agressões. E como ele me batia com graça. O som de seus tapas em meu derrière soavam como o canto do uirapuru. Seus gemidos me estupravam os tímpanos de forma tal que nenhuma surdez advinda daquele abuso me seria infortúnio. Seus dedos acompanhavam seu membro em minhas cavernas, minhas úmidas cavernas. Me viravam do avesso, assim como seu mastro, rijo como pau brasil, me fazia ver anjos.

(Oh Nick, como são belos os anjos que tu me faz avistar).

Meus olhos cerrados, minhas pernas cansadas, entrelaçadas nas pernas dele numa dança cósmica, meus nervos exaustos. Nada disso me afastava daquela lassidão. Me banhei em seu leite seis vezes seguidas. Me coloquei a disposição de suas armas em posições tétricas, deliciosas. Queria engoli-lo através do meu reto. Ruborizavamos as paredes, tal a intensidade com a qual consumiamos nossos encontros. Nos amalgamavamos e nos multiplicavamos. Afrodite batia palma para nosso amor, aquela vadia grega. Faziamos sexo com destreza, caros punheteiros. Praticavamos com tortura o amor que não ousa dizer o nome. E nós ousavamos.

Aquele homem e seus músculos de homem e suas glândulas de homem e seus pelos de homem me tornavam, dia após dia, mais mulher. Mulher lobo. Matava minha sede em sua saliva, a fome eu aniquilava com quilos de cigarro. O quarto cheirava a nicotina, merda, porra e amor. Não pagavamos mais as contas. Não precisavamos mais de luz, das coisas mundanas, eramos a essência do hedonismo barato e fácil. Estavamos mortos em nossos corpos, grudados eternamente pela cola tenaz do licor que jorrava de hora e hora de nossos pintos. Ele me tomava novamente em seus dedos, que dançavam em meu cú.

Sua língua me descobria a cada segundo que se passava, assim como a minha o decifrava em códigos que só eu sabia morsear. Eu o chupava o cacete, fumava outro cigarro, drinkava um álcool vagel qualquer. Eramos baratas, imortais, baratas. Eramos tudo e nada. Eramos o alfabeto inteiro, proclamado em frases indizíveis. Matamos todos os velhos vizinhos com nossos palavrões de cama suada. Eu já não tinha mais forças para manejar aquele homem, mas ele insistia em me fazer usina nuclear.

Eramos os pederastas mais gloriosos de nossos tempos, de todos os tempos. Vendiamos todos os nossos filhos. Não tinhamos tempo para cria-los, só tinhamos tempo para faze-los. Eu emprenhei quinze mil vezes em dois dias.

(Oh Nick, como você, e só você, sabe me ter).

Nick, se não for com você, nunca mais quero foder.

sábado, 28 de novembro de 2009

eu, tu e o gato

De repente a gente estava numa banheira, eu, tu e o gato. não sei mesmo o que gato fazia ali, só sei que ele tinha o olho assim, mais amarelo, como o olho dele é. eu não conseguia saber o que tinha na banheira, acho que lama, eu disse, mas tu não escutou - nem na banheira tu escutava, acho que tu ouvia música, mas eu não sabia disso. e o gato se mexia, como afogando, mas nenhum de nós lhe deu atenção, como nunca daríamos atenção, do jeito que fazemos quando ele roça tua perna ou pula no meu colo, implorando carinho. mas agora ele se afogando e não fazíamos nada também, porque tu escutava música, eu acho, embora não soubesse, e eu pensava o que tinha naquela banheira em que nos encontrávamos e nenhum de nós estava envolto em nenhum processo mental filosófico que dissesse porque estávamos naquela banheira com o gato que se afogava a nossa frente sem que tivéssemos o trabalho de retirá-lo de lá. (Era uma bonita morte a que assistíamos e não havia nenhum motivo aparente para acabar com ela e transformá-la novamente em vida) então eu disse, merda! e nem tu, nem o gato, escutaram. ele estava preocupado demais em se afogar para se importar com o conteúdo da banheira que era agora nossa morada. o cheiro era de merda, definitivamente, e eu não sei como não percebera antes - no princípio cheguei a pensar em chocolate e, por sorte, não provei-lhe. eu sorrio desses desastres do meu olfato, já quase perdido, e de ver o gato assim, desfalecendo aos poucos, perdendo a vontade de lutar e quando eu acho que ele vai desistir, ele tira do esôfago um som que era mais que morte, um som que interrompe até a tua música e eu penso que não quero que tu fique brabo porque o gato está morrendo sozinho e dessa forma não convém que tu o ajude, sujando tuas mãos, que já estão sujas de merda, de sangue também. mas acho que tu percebe que não seria sensato fazê-lo e volta a tua música. e eu busco outra coisa para me questionar agora que sei o que inunda aquela banheira, enquanto o gato continua a morrer.

(eu sei que secretamente tu olha meu corpo contraído, o olho mexendo agitado e torce para que sejam logo sete horas, para que seja o despertador e não tu a me tirar estas inquietações)

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A fruta http

E eu queria arrancar as minhas maças do meu rosto, que insistem em me entregar em suas levianas ruborizações. Queria eu comer minhas infantes maças que brincam com meus sentimentos como se minha cara fosse playground. A vida não continua, (não/não), não continua. Só as maças se exercem.
Em minha face, sem minha permissão. Pretendo amarra-las. Ensejo mata-las. Criaturas filhas da putesca que não hesitam em derrubar meus verbos, minhas íntimas vergonhas. Não sou canto nem proveito, não sou maça. E quem entende isso se nem eu o alcanço, esse tal firmamento que me vendem, esses que me entendem, que me vendam em feiras de macieiras.

E que se fodam todas as planicies repletas de bochechas prontas a se entregar. Podem vocês me definir, eu não me importo. Não me vendo. Eu não continuo. O que faço eu diante do meu limite animal nem minhas maças podem me revelar. Nem vocês, bando de rebanhos.

Cansei.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

EU

(...)
Meu maior consolo
É o adormecer, que me despede do mundo
E me entrega nos braços da exaltação
Dos sonhos incomunicáveis
(...)

Tiago Satarê
poeta indígena da Amazônia

domingo, 22 de novembro de 2009

eu estou perdido
e você sabe que estou perdido
podia se apetecer de mim.

você também.

você está perdida.

ao menos, você sabe onde está
ou no que se perdeu.

sabe, rosa?

eu ardo cada pêlo
os poucos que deus me deu
nesses sonhos interminados

- quanta indiscrição, espelho.

falei, em sonho, cavalgando um cavalo prateado.

sabe,
eu nunca montei um cavalo na vida.
sempre tive certo pavor,
por um amigo que sentou numa cadeira de rodas
em uma queda desnatural
e eu sempre tive a imagem de seus pés petrificados
e sua coragem inabalável, quase mentirosa.
meu grande amigo,
quanta verdade houve em tua estrada?

sabe, rosa
inicialmente eu temia esse andar, como diriam os cambas
"peculioso"
entretanto
eu montaria seus pôneis,
o mais triste
ou maravilhoso,
é saber que isso você sabe e por isso não aceita
minhas mentiras sobre nosso amor.
talvez por achar que quando estou nu
mesmo vestido,
essa coragem me antecipa a vida
como uma respiração que é respirada
por alguma espécie de vida
alguns segundos antes de mim.

segundos depois, claro, eu respiro
mas você parece diferente
parece quase uma respiração de montanha
que carrega lava nas mãos
talvez seja o seu talento pra pintura
ou sua necessidade de fumar
eu também enfrento a escuridão,
o amor que sopra bandido em cada ouvido
este sou eu, diferente de ti.
a respeito da vida mundana,
é improfícuo, não nos resta dúvida
que

a beleza do ser é a mentira da humanidade.

mas a beleza da rosa,
a tua beleza, sem medo aunque amor
era diferente
quando penso nela
em seu corpo alvo
me desespero.
aos meus olhos vem
a minha primeira chegada ao rio,
eu garoto que era,
dentro de um ônibus fétido e sentimental
eu não era nada além de um amontoado de sonhos
eu era sim a pequenitude em essência
querendo conhecer o tal amor que diziam vender
por ali
mal sabia o que queria eu
mas este amor, rosa, este amor singelo e dedicado
eu conheci sem precisar pagar mais que minha atenção
e minha sinceridade
por instantes sempre fui o dedicado
mas sem inteligência ou madurez,
neguei.

pela manhã, entre tosses e mágoas,
(recordações não matam mágoas)
eu chego ao mesmo lugar,
eu estou perdido.
por negar a verdade profunda
a verdade descaminhada
meus filhos,
eu não os tive,
suas roupas carregam meu cheiro
minha pele ansia a sua
os barulhos do dia a começar
seja lendo seus poemas impiedosos
escrevendo coisas ofensivas em relação a nós
ou simplesmente doendo o que tento esquivar
porque quando estive no inferno da sua droga
ressurgi como uma ave resistente à loucura
conversamos frente a frente,
trocamos carícias até nos despirmos naquela que foi
nossa primeira noite de redenção
quando eu estava doente e ninguém soube disso
você rezou e eu soube
sem saber por ninguém, nem por você
que estaríamos juntos
no fim.

eu estou completamente perdido,
e você também
os pássaros seguem cantando,
uma ventania invade a casa sem pudor
continuamos perdidos
e por grande ironia da vida,
vivos.

por fim, a canção canta exatamente a ti:

a novidade é encontrar a flor que possa recuperar o sabiá
que cantou antes de chegar o diabo na vila e desde que chegou subiu
naquela árvore que quase toca o céu como você sem anunciar
(sob as ondas dos teus sonhos)

eu estou perdido.

se tivéssemos uma polaroid

Me apunhala a tristeza: Adonis não está nas fotografias. e faz tanto tempo. Sua foto não está na geladeira
não está na gaveta
não está na agenda de 2001

Eu procuro, mas não está no armário, nem no banheiro ou sob o colchão. (a foto de Adonis não está em cima da TV, não foi gravada em disquete, nem em CD - acho até que na época poucos tinham pen drives). no álbum de fotos não está, sequer caída no forro da bolsa preta de fuxicos que eram moda naquele verão. Adonis perdeu seu rosto num dia de chuva e eu vasculho pela casa e ele não está.

Quem sabe esquecido naquele filme de 36 poses - asa 100 - que nunca revelei.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

...




antes de tudo eu deveria chorar. mas não choro.
a garganta anda em pó. o telefone não sai das mãos nem dos olhos.
sabe que diariamente, mais ou menos às sete da noite, quando atravesso o conjunto nacional e caminho em direção ao ponto de ônibus na frente do teatro, tenho a impressão de que alguém vai passar de carro e atirar em todo mundo, que nem essas coisas que a gente vê no jornal. dá um medo! então me lembro que são só duas ou três gotas de agonia que beijam minha nuca atrevida num calafrio. as pessoas borbulham uma vida cansada alí. daí eu viro as costas pra rua, pq o ônibus sempre demora e eu sei que vai demorar de novo. m'encosto no parapeito que dá pro eixo monumental e a monumentalidade da esplanada me desenha a boca. minha voz corre leve, meio samba do recôncavo, moderna pipoca. quando vejo, geral tá olhando mas sinto que me sinto melhor. acho que isso virou um ritual que independente da dor.
aliás, numa dessas o teatro estava bem cheio, vc estava lá? Eu preferi ir pra casa e escutar teu conselho..
sabe a agonia que eu comentei que senti quando estávamos naquele café, bem no começo..? vc não via meus olhos e eu emudeci tua boca. havia uma inércia em vc que me irritava profundamente... agora a garganta se esconde de novo e a agonia é tanta que ontem cortei as unhas bem curtas. curtas dor de carne. carne dor de curtas. pintei os curtas de vermelho e as carnes de cetim [vermelho, meio abóbora]. me fez lembrar nosso ócio nos tempos do Irish, onde você fotografava minhas mãos e no fundo havia uma parede de livros empoeirados, sem títulos. no meio de nós, silêncio, como se um ruido fosse capaz de entrar como rabisco pela lente da câmera.
me lembrei também de uma noite no café havanna, onde o amarelo das luminárias do balcão, logo atrás de vc, pulou nos meus olhos sorvendo a última lágrima escondida de birra. vc jorrava coisas que me emputeciam. quando cutucou meu silêncio, respondi qu'eu ajustava e desajustava o foco dos meus olhos e de minh'atenção conforme o arrepio da minha pele. vc me achou egoísta, mais do que quando canto aquela música da gal.


mas agora minhas unhas realmente gritam numa dor de carne apertada. descascam. escorrem. derretem nas costas d'outro. como nunca haviam feito. mas essas ruas também nunca dançaram tanto debaixo dos meus pés e meus pés nunca se calaram tanto.


claro, claro que te faço um café. pode ser turco? então me vê aquela xícara branca fazend'um favor? a chaleira pode ser essa mesmo pq na verdade a de cobre eu queimei dia desses, daí joguei fora. é, ironicamente tava lendo o pedaço em que o mahmoud darwich falava sobre o medo de sair nas ruas de Beiruth, naquele cerco de 82. é, pode ser. pra todo mundo? não não, ainda faço xícara por xícara. eu sei que é só mais um ritual, não me importo, pode ir bebendo. insuportável isso de resmungar dos meus rituais. e perdi de comprar todos os roteiros do glauber por cinco reais numa feira de usados perto da estação das barcas pq só tinha cartão no bolso. Sabe de qual'é? [há pouco bebi isso da boca de alguém, mas apostrofo tudo, que é pra ficar mais charmoso. sabe com'é, não perco a mania! e ainda tá meio morna a expressão, por isso não esqueci de todo.]
mas, sabe, no fundo não tenho certeza. ou tenho. ainda não decidi.
ando escutando umas makebas e tal, mas essa vc já perdeu, continuou no seu chico velho e no caetano riscado. podia mudar, mas vc não muda. acho até que brasília nunca me foi tão movimento. minhas fotografias já não te envio por carta, já não serão expressão na parede do seu quarto. verão que vem vou pra cuba, esqueci de dizer, mas dessa vez quem carrega maldita lente sou eu. sem sombras. nem vírgulas.
não. na verdade é arábico, mas se preferir nescafé batido. que nem a gente tomava lá em casa. dáqui qu'eu bato. lembra daquele texto que tentamos gravar, com o camilo? quando ele entrava na sala de uns amigos ferrados, olhava pra suja mesa da cozinha e pensava, no entanto há nescafé! onde há nescafé, há esperança!
acho melhor ir logo, rasga esse papel que não quero saber de voz minha amarelando nos cantos do seu quarto, que aos poucos empalidecerá também los recuerdos de mis cores.
continuarei do lado de cá do telefone. meio sozinha, meio quieta, meio desejo...
quanto à minh'agonia, meu bem?

acho que 'agonia é mesmo a própria feniminidade em si!

[em mim]
[e vc não soub'entender isso]
*fotografia dessas que a gente tira quando o piscar de olhos demora um milésimo de segundo a mais do que deveria durar.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Me = Porter, John & Turner or Me = rodiculous


I want love, but it's impossible
A man like me, so irresponsible
I want a love, that don't mean a thing
That's the love I want, I want love

But your love goes like the beat, beat, beat of the tom tom
When the jungle shadows fall
Like the tick, tick, tock of the stately clock
As it stands against the wall
Like the drip, drip drip of the rain drops
When the summer showers through
A voice within me keeps repeating
You, you, you

I want love on my own terms
Don't give me love that's clean and smooth
I'm ready for the rougher stuff
No sweet romance, I've had enough
Of you day and night, night and day

But under the hyde of me, there’s an OH such a hungry yearning burning
Inside of me
And this torment wont be through
Till you let me spend my life making love to you
Day and night, night and day

And you keep me thinking that you’re simply the best
better than all the rest
Better than anyone, anyone I've ever met
I'm stuck on your heart,
and hang on every word you say
Tear us apart, no, no,
Baby I would rather be dead

I just want love, any kind of that silly thing called love
night and day, day and night

domingo, 15 de novembro de 2009

2:26.am: acordei com um medo no peito. só me recordo do sonho tortuoso e a sensação de estar presa ao corpo mas não ter acesso aos sentidos. um segundo depois fitei com os olhos o que não podia ver: meu quarto vazio que de tão meu se tornara algo estranho a tal ponto de ter certeza que dali não conseguiria mais sair. o silêncio de dentro misturado com o silêncio de fora. amortecida deixei o tanto que tinha guardado transbordar, assim, sem motivo algum. sem ter outro remédio percebi que minha vaga existência sempre se resumiu a simples idéia de nãoprecisardeninguém e é incrível como com o passar dos anos tudo isso começa a te perturbar, involuntariamente. nessa noite eu sentia a falta de e, mesmo assim, ainda resistia em usar a palavra. nada de afeto. estiquei meus braços sobre a cama de solteiro e senti a ausência nos lençóis. translúcida e gelada. não sei como me deixei levar sem freios a esse ponto. errei várias vezes nos cálculos e agora a madrugada vinha assombrar meus sonhos. fechei os olhos e cerrei os punhos.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Prompt


Acordei um segundo atrasado.

O suficiente para me perder entre pensamentos.


Recorri ao choro para enxugar a dor. Eu precisava daquele segundo de sono a mais.

Precisava dos meus olhos fechados.

Para sempre.


Estava eu esquecido num canto opaco de mim mesmo. Eu e minha busca inescapavel de sofrer na ponta da faca, sempre empurrado por uma ineludível curiosidade em tropeçar no meu tumulo.


Queria pintar um arco-iris de preto. Mas eu preciso dormir.
let us not be stable matter
just let us feel
the light increase

spread around
a life that floats
inside is not
best place to glow

let us not be stable matter
waves on the air sea
uprising connection

take a boat and dive
same kind outside
those eyes are not
safe guide to show


just let us be
translucide unsolved
pure strenght impulse

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Até que capitule

Vamos esquecê-lo? Queimá-lo na fogueira das paixões platônicas, sustentada pelas suas próprias chamas. Vamos amordaçá-lo! Arrancar suas unhas, primeiro as dos pés, aquela unha meio arroxeada do pé esquerdo; as das mãos em sequência. Daremos choques em seu sexo (maldito sexo que nunca foi meu). Lhe doaremos todas as angústias, sofrimentos, até que capitule e diga: talvez.

E depois?

Depois ainda haverá amor.
Rio Cuiabá, década de 70... época de peixes grandes!
(autor da foto: desconhecido)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

amor traçado por Gaudí

o café chegou na mesa num golpe grosseiro.

desbaratinamos um silêncio de fumaça esculpida e as cigarras preencheram o espaço com seu infalível coro de novembro. 'sou tímido e espalhafatoso'.. cantarolou olhando a marca da porcelana, na qual nos serviram o tal café chinfrin.



o silêncio durou duas riscas de giz e mais duas mordisquelas no ombro até ele voltar a falar.

até ele voltar a sofrer.



sorvi o som que escorria de sua boca enquanto minhas mãos desejavam apertar seu sexo.

terça-feira, 10 de novembro de 2009


o homem cego
faz noite ao dia
vestindo o véu pesado
de sua agonia
no destino dos céus

do pouco que dizem que fazem
ele carrega o incerto
por entre os medos as grades
tropeça o sonho desperto

agora,
as nuvens caminham e abrem
espaço ao sol ainda dia
redondo na fofura que passa

se movem
soberbas do vento
desenhando espaço cativo
ao azul que enfim
desloca os presságios que haviam
em brilho ardente mais cores, a vista

do homem que ainda pode sorrir
reconfigurando o amarelo da vida

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

time has hold us

no alvorecer, agora
eu só quero
que nosso amor rompa as marcas
sem vigília, memória amarga
do dia em que nos perdemos


sob o sol a florescer, primavera
eu ainda reconheço
nosso olhar que não arrasta
sonho difuso, abismo chaga
no caminho em que nos distraímos


mais força e brilho, cores
eu também sinto
o silêncio em que aprendemos
intui vida, reencontro eterno
para voltar ao que somos juntos



eu quero que você vá, meu amor
que você siga
livre, sem o relutar distante do que poderíamos
sobre tudo que já temos



aqui
dentro e fora
sempre



eu também vou
continuar
amor
alvorecer do novo dia
caminho sol da primavera
brilho tranquilo em cores




por tudo que imaginamos
desta canção

Eu furto




( ou poema do eu furto o Natal um pouco atrasado ou blasfemia ou sacaneira ou infâmia ou graça imensa)


Se eu ganhar a propina que eu suponho não terei a angústia do Natal. As sereias sim.
Acenderei charutos com dinheiros. As musas naum.
E a mulher de todos os outros serão minhas. Você, talvez.
Serão minhas enquanto vomito no quintal.
Os homens, meus ja são.

Cristandade.

sábado, 7 de novembro de 2009

Bazárov


[lustração Mel Kadel]
Acordei com o tempo em que Bazárov deixara cair suas anotações na escadaria da Российская Государственная Библиотека. Conforme previsto, pendurei meu ventre no Subsolo das Memórias, e ele escreveu por de baixo da minha saia: os limites da língua são os limites do meu mundo.
Alonguei meus sotaque russo até o domingo em que plantamos rosas amarelas na avenida LATIM e respondi: sujeito não objeta.

[no nosso singelo mafé da canhã, o sono das palavras dá de beber às árvores migratórias]

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A magica da vida se fez presente enquanto eu me divertia com meus cinco dedos.

Eu chorava jujubas por voce, percebe?

Me postei a lamber minhas lagrimas para que voce nunca chegasse perto daquela tristeza morta; e comecei a acreditar nas terças-feiras, nas cantoras e nos mentirosos mais lindos, de preferencia os de olhos azuis. Parei de me ver no espelho em tons pardos e tomei um banho de sol para ter forças ao gritar: SABRINA, voce e minha mulher.

Sem acentos e sem vertentes.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

the rain drops


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...............................................



.......................................





............(reti
-.... cên-.....cias)

.............

....

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Desacento

E se os want-want da wall-mart continuarem a se conter diante da maxima de que todos devemos propagar o mantra do ‘be yourself is all that you can do’, eu nao lhes pago mais propina. De certo terei a Camara dos Mais Disputados na minha cola, tal sera a afronta.
Mas veja so o que eu noo vejo: se eles podem rabiscar papeis e dizer que aqueles garranchos sao suas assinaturas, e que eu devo viver por elas e para elas, e devo cumpri-las, prefiro ser feliz ao seu lado.

Poderemos correr pelos corredores dos megamercados e derrubar os sucrilhos das gondolas; quebrar TV's de plasma com bastoes de cera; cuspir nos salames e dormir entre as bolachinhas tortillas. Andar de toboga ao inves de carro, decorar palavrões como bobo, besta, bosta e sorrir de nos mesmos em fronte a igrejas apoliticas.

Basta que nos afastemos das pautas e daqueles que sao alguma coisa na ordem do dia. Eu vejo um futuro brilhante diante do nosso imaculado horizonte. Vamos pegar aquela esquina vertical com a qual sempre sonhamos e vamos dar no pe, rasgando todas as terceiras vias.

Deixe as canetas e as anotaçoes de lado.
De me sua mamao.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

nalgum ponto de taxi fúcsia no deserto


meo eucípedes,

sei que é passada ultrapassada a hora e o minuto da diagramação das notícias furadas.
porém, convenhamos. seu requerimento geneticamente modificado ficou entalado no meu ponto de vista.
aí pensei em dizer algo como: vamos escrever um contexto com textos?
mas lembrei-me que gosto de polainas geométricas de fárias, fárias coures, e você, das asfálticas cinzéticas.
então, venho por meio desta, e daquela de outrora, declarar todo meu imposto de renda.
imobiliários e auto-motivos, conforme exige a lei municipal.
juro que prometo emitir seu boleto assim que a justiça federal desbloquear meu telefone.
ah, aproveito também para pedir vistas grossas de processos de perdas, ganhos e danos de relações que envolvam menos de 1 trilhão de habitantes.
espero que a viagem por entre os fanáticos tubos de lavar roupas tenham mesmo te levado até os bolsos da esquina.
remember: quando mirar um want-want fazendo pose em fios elétricos tétricos, não hesite: derrube-o com uma chinelada certeira.
- e por favor, segure meu espirro enquanto teço uma actorável manta.

domingo, 25 de outubro de 2009

Conselhos de guarda-chuva

O telefone toca. Um BABACA ser te chama para sair.

Atenda e diga: "Alô?
O que?
Eu fui atropelado?
Vou aí agora me levar para o hospital".

E no Ipod tudo, eu escuto Mulla Magalhantas.
Comprei um saco de piadas atômicas para ver se consigo perder uns 70 mil amigos de cabelos chon chons.

sábado, 24 de outubro de 2009

vídeo-poema Canção da Liberdade

Amigos,
meu vídeo-poema está concorrendo ao 3o Prêmio Internacional Poesia ao Vídeo da Fliporto 2009





Assistam e votem até 25/10 aqui: http://www.fliporto.net/votacao2


o sonho está cada vez maior :)

muito grata a todos.

scary threesome






Do outro lado da escada chorosa.
Do outro lado.
Ela podia ter passado por aqui.
Mas preferiu o OUTRO LADO.

Um celular moderado

Há muito que este corpo caminha envolto em fiapos de solidão.
E é sozinho que o mergulho na água gelada que jorra das veias mortas que atravessam o Norte dos meus sentidos.
Sozinho que vou emergindo, e sinto-me despertar com o corpo trespassado de frio e água. Sozinho que abro os olhos e vejo-te assim. Apenas tu. Diante de mim.
Avançam os dias e os meses e a solidão desfaz-se com os ventos que sopram do sopro do vinho seco.
Derrete-se com o calor do teu corpo, junto ao meu, quando te aperto nos meus braços.
E embriagado por esta sensação de que te tenho e cuido, com o travo na boca ao sabor cálido do café que tomamos nas manhãs de chuva, abro os dedos. E sem dar conta deixo-o partir.
A solidão fez-se música.
E perdeu-se no céu entre os últimos acordes do passado.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

finálico [na Cataluña] onze anos depois



Bebíamos da mesma fonte escassa, afinal, tínhamos nascido do mesmo ventre magro e estreito que aquela sequência de atalhos formava. Falávamos baixo e íamos diminuindo na medida de acabamento de frase. O único rio [que não era rio] só enchia quando chovia, e quando chovia, e enchia, servia pra palavra, pa lavá pabanho pagole panado e pa nada.
- Se nos espremêssemos bem cabíamos na mesma gaveta.
- Não me meça com a sua régua!
- Que farsa éramos quando separados.


quarta-feira, 21 de outubro de 2009

domingo, 18 de outubro de 2009

o próximo passo é chorar. é quase impossível viver como pedra. eu sou mulher, vivo de crises e me arrebento todinha. incrível mania de sabotar tudo o que me faria bem. hoje me disseram que a beleza intimida. eu digo que é uma puta, porque até agora só fiquei com o dinheiro prostituído de noites mal vividas e fodas, no mínimo, suportáveis. digo mais, tudo isso cheira dor. a questão é: porque me simpatizo com qualquer pessoa que me dê o mínimo de atenção ? mas é só acariciar a mão que saio correndo feito pateta. é tudo tão down. lembro sim dizer que estaria pronta para o amor e suas problemáticas, eu sempre falo que prefiro dar cara a tapa, mas na verdade nunca dou. sempre quero que as coisas aconteçam, mas nunca as deixo acontecer. então olha você: eu acho que consigo suportar, falando sério, eu só quero. estou me sentindo tão sensível ao tato que qualquer um que pegasse me desmontaria por inteira. acho que mereço um pouco de carinho, pelo menos uma vez na vida - vidinha de droga - cansei dos meus vícios. eu nunca matei alguém. preciso viver algo antes de me arruinar e o pior é que já tentei de tudo, cara. fiz yoga demais, li the secret até o fim, parei de comer carne vermelha e até fui procurar Deus. levantei a pedra e não tinha nada embaixo. já disse que estou por um fio? pois é, pela primeira vez me reconheço. articulada, tirana, egoísta, bêbada, usurpadora, solitária, ultrajante e deprimida. everyone is a fucking Napolean, and I deeply know.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Terapêutico



Deixe-me em paz, me deixe praguejar este mundo
Deixe-me marcar-te também
Com ferro, felicidade, foi-se embora, filhadaputa!

Deixe-me descer em pleno movimento
Porque aqui jaz aquilo que se via
Em passadas vias amargas, hoje agridoce
Melhor que fosse como antes, aliás, um dos infernos de Dante

Deixe-me ter apetite pelo que não me apetece
Deixe-me lograr ad infinitum
Nem que seja através de doses de pinga, vodka e comprimidos de Valium

Por favor, deixe-me.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Circulação [de coisa que escorre]


(Viagens que suprimiram e condensaram um conto seu)

A água seguia um trajeto circular a ponto de me circundar
Senti no corpo que um vento pode me deletar as asas e 'Caps Lock' meus cílios. Eles ficam grandes, em caixa alta, assim, amadurecem mais rápido e caem como mangas amarelas, bicadas por seres de asas coladas com superbonder.
Um instinto martelo me tomou e eu quis matar um concreto. Quis triturar até seu osso arquitetado por armações (arâmicas?)
Foi então que me libertei de um tom sépia raquítico
Um ser de rua me intimou e todos esperaram frases
Dei um vintém sujo e me infiltrei num banco
Passando por janelas descortinadas porque haviam sido desencantadas por vândalos, soava um jazz azul. Mas foi na latrina balançante do ônibus que previ que ia chover
Cai no brejo, vida no pântano. É assim que chego ao Hotel Neon
Meu carma é viajar pra dentro de mim e fingir, fugir de mim mesmo
Pseudocronologias
Veio o vento. Y ahora?
Faça nevar. Azar o meu.
Azar que circula por entre a vida como um redemoinho
Circulação.
(Mas o mau agouro escorre?)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

De retina suada e alma alvejada por projéteis eletrônicos, enguli os pacotes governamentais como se fossem feriado de manhã. Enforquei a sintaxe com coleira de fio dental e repeti passo a passo do disse me disse dos vegetais. Fiz que reconhecia a pontuação pálida fúnebre e sorri cerrado quando ele me reticenciou. Num desacato do tempo, peguei a pena que va g  a   r   o   s    a  mente caía e num movimento angular dei espirro para a parede que se alongava em mim. Sem nó, nem piedade fiz carinho nos tijolos que erguiam ocas e páginas vazias. Para fingir que eu também mentia afiei os dentes num tango de língua e saliva marinada.
- vamo voa?
- eu num voo só nado.
- só. se nada?
- eu, nada.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

ya no más

['tu canción tiene el frío del ultimo encuentro,
tu canción se hace amarga en la sal del recuerdo.']
.
.
.
Abrimos a manhã no supetão de um beijo e o dia não estalou. Há tempos vinha confundindo tristeza com medo e meus olhos pesavam um kilo de ardência, feito vento de maio secando a retina. Foi então que peguei meu passaporte no armário, uns discos ainda fora da capa e o livro do Caio, já bem amassado.
No tatame, pulei teu sono silente e rumei desatino pra rua quebrando mi voz con llanto.
Cê nem me ouviu e eu nem te dei tchau.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

não, não diga nada
na noite há sempre uma levada
que pende 
lenta
o chegar
da imensidão


toda madrugada
senta o vento ao pé da estrada
que escura 
aquieta
o pulsar
da solidão


roda estrelada,
num céu de sonho
a lua alada,
no azul 
espera
o recomeço
do amanhã

terça-feira, 29 de setembro de 2009

um anjo
dos caracóis à pele negra
inundando o quadro
com seu riso
exagerado
desenfreado no jardim


ele sabe que ando
a me lançar procurando
inspiração

as flores preenchem o chão das cores
continuando o bordado
profundo da moça
e do amor


um anjo
veio pequeno
sem mais fazer
do ouvido cais

despido

ficou de leve
em tudo (que se
tem sem ser
preciso)
dos caracóis às conchas do seu vestido azul
entre as escadas
ao chegar, completamente alcoolizado, pensei nela. pensei que nunca havíamos nos visto, embora trocado poucas sobre o vento. da última vez falamos sobre as metáforas demasiadas, uma simples forma (nossa) de fugir da realidade. enfim, após horas em pé, sentei-me e vi o bilhete:

amarrei cinco sorrisos e sai em disparada. parei no meio do caminho. fui a uma casa proxima perto. com peixes de garrafa pet e violas elétricas penduradas na piscina. meu olhar ficou mais longo. guardo então o pequeno encontro amarelo para a plástica de colagens e chuvas de guarda-chuvas. te tenho.

s. g.


ri.

nunca havíamos nos tido antes. nem em versos. aí então de súbito me veio uma memória e arrepiei os pêlos dos braços. naquele momento lembrei que foi nela que pensei quando entrei em casa, na escuridão. havíamos ido beber, julio y yo, no bar do neves, e ali nas redondezas senti teus ares, senti uma dor intensa que não durava mais que seu sorriso desconcertante - mas não entendi. acho que ambos concordaríamos que o não entendimento era o mais conveniente por agora, por ali, pelo bar do neves, pelo o que não aconteceu naquele dia que nos olhamos na praça de universidade. eu acho que nunca entendi. sobre suas palavras, creio não ter muito o que comentar. elas falam por si. um dia, quem sabe, nos olhares nos olhos novamente.

escrevi no papel branco

- carta resposta para s.g.

ao pouco que falamos; dádiva. vi teus olhos brilharem nalgumas noites perdidas entre um continente e outro. te imaginei em carros sem fim, lotados de gente e esperanças rotas. nesses sonhos vi tua silhueta deslocada em cada cinto de segurança, vi tua anca, vi tua sombra, vi teu penar, vi tua alma inteira perdida na redenção de teu próprio corpo diante do descanso mínimo. acordo sem acreditar a vida ser mais que isso. sinto o tempo passar; estamos velhos. te carrego.

(então guardei a folha na gaveta e adormeci).

domingo, 27 de setembro de 2009



aquarela do Dahmer

bebia sonhos caninos com café e ternura de quem tem para onde voltar.
andava sem camisa desde que seus braços amordaçados ficaram curtos demais para escolher sua cor preferida.
sua extensão de pele amarela colonizava tudo que os outros nele reconheciam.
falava de números ímpares e cigarros sujos de azuis com propriedade de jardineiro químico.
não saía de si nem pra tomar banho de sol.
[era o mágico da cidade das 13 pessoas]

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

From...

Nunca o havia visto em outro cenário que não aquele mesmo do qual ele parecia nunca ter saído. O lugar onde o conheci.

Ele tinha o cheiro daquelas paredes, a cor liquidificada da casa inteira, a moldura lusco-fusco contempladora das seis da manhã pela janela. Meu temor era vê-lo fora de lá e não reconhecê-lo. Será que ele vai deixando um rastro de cores por onde vai passando, e, quanto mais se distancia, vai se tornando pardo, cinza, até virar mais uma estátua da cidade?

Imaginei-o subindo a ladeira, carregando vasos coloridos para as suas plantas, com um raio de sol atravessando uma mecha-cacho do seu cabelo loiro. Um galego gingado. Com aquele ar de esperteza leve e firmeza precisa.

pajarillo

primeira vez que chegou, um amigo o trouxe. Depois ele aparecia vez ou outra. Lembro dele deitado na madeira do chão com os cotovelos apoiados no piso pra escutar o português bonito dos desenhos animados. Era esculpido em fumaça. A gente passava por ele, tropeçava nele, falava sobre ele e o brilho de seu menino-dos-olhos não se apagava nem se movia.

As vezes vestia uma blusa curta de paetês velhos e saía pra comprar a mistura do dia. Mal sabendo que era ele quem misturava os olhares, latejando o dia dos transeuntes no caminho da quitanda.

Chorava, mais chorava que ria. Até pelo irmão estúpido e pela mãe puta que deixara como visão afastada no tracejado entre sua casa, nos confins de Pasto, e a carretera que dava pra escola. Kilometricamente distante. Minuciosamente esquecida. Ela sempre o mandava pra rua como se o cuspisse pro mundo, mas ele voltava por detrás da poeira levantada depois que acabava a última aula. Diz que foi numa poeira dessa que um dia ele apareceu aqui no cerrado.

Chorava, mais chorava que ria. E me contava que jogou os pés no mundo, mas que sonhava em ser modelo. Contudo sabia, era da laia dos andejos que vão pra onde aponta o nariz quando acordam. Feito un pajarillo sensível, chorava os corpos que pelo dele passavam.

Um dia pintou os olhos com um cajal azul, mais forte que de costume. A linha nos olhos fechava seu corpo, feito patuá, pro mal que vinha de fora. Era uma fortaleza de ir à guerra que era sua rua de cada dia.

Nem esperou o cuzcuz pro desayuno. Olhou pra mim, bateu a porta e não disse palavra sobre o doce estampado na almofada da sala.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

[a irmã fúcsia]

amarelo-doce entona o recortado em cima da mesa da sala oval.
no corredor minotáurico da repartição publicamente privada, confiro: nenhum fio desencapado em meu cérebro pálido foi capaz de produzir estalidos que acordassem os pobres-diabos. entro e saio sem ser notada.
ontem fumei na companhia agradável das nadadoras sincronizadas que me levaram ao templo do deus gau que por sua vez me levou em sobrevôo ao estreito de gibraltar.
de lá vimos marroquinos disfarçados, usando chapéus panamenhos feitos em cerro azul.
nauseada voltei para casa.
antiacidamente correu pela minha garganta o cool-aid que me acalmou, embora ainda regurgitasse mariposas de diversos tamanhos toda vez que me lembrava da voz de deus dizendo: (continua)
o dia começa não querendo ser apenas um e nós ainda nem sequer levantamos da cama. o sol nasce especialmente para despertar os nossos corpos - e eu muito sonolenta, estico o meu braço esquerdo em direção a janela e deixo um feixe de luz entrar. o olho como uma mãe olha o seu filho dormir. é assim que gosto de tê-lo, desprotegido e encolhido em meu ventre. ele acorda e se desfaz de sua pose fetal, me diz bom dia e beija a ternura dos meus dedos. eu só sei pensar em amor, sorrio suavemente pensando na acentuação da minha felicidade e o agarro com as duas pernas. o contorno do meu corpo sobre ele. o meu corpo ainda para ele. todos os meus dias poderiam ser assim - se eu realmente quisesse, seriam. eu só sei falar em amor, e está tudo tão preso dentro de mim.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Um sol a se pôr aqui, enquanto você navega o outro lado. Do mundo.
A nascer e encher os olhos, daquele corar quente de vestir péle morena. A sua.

É, acho que vim parar aqui mesmo pra te (re)encontrar e (re)aprender a colorir o dia. No céu.
Agora sei do sol difuso > dos tons > em cada um. Desde quando(? nos) reparamos.

A manhã aberta é sorriso. Os seus, gigantes aproximando.
[Me confundindo[ Buscando. Fundo do mar quase afogava. Nos lábios, surpresa-inerte - Até perceber você (me reparando assim).

D’um azul que chegô agora. Displicente(mente) bordado laranja renda derramado. Ventos de versos para Indonésia. Dissolvendo um celeste_ que noutro cobre*.

Sobre a rede
dessa sacada
(sempre você) espreguiçava,

a ser mulher

e ter seu homem


terça-feira, 15 de setembro de 2009

as árvores migratórias

Apareceu guardando nas mãos flores de glosóli.
Passava o frio se cobrindo com guarda-chuva.
Era o cientista da cidade das 13 pessoas.

domingo, 13 de setembro de 2009


Sua linha da vida na palma da mão é curta
anda muito tremida, intrépido tracejo
Se você se programa em mim
Eu atraso os relógios e permaneço sempre há pelo menos uma hora abaixo
Eles só são úteis quando utilizados para me algemar
Se você flutua, mas tem dúvidas
É pq vc precisava mesmo se vestir de insensatez
Você precisava ouvir o lado B
Pegar a estrada de chão
Você até que finge que não se importa com toda essa varredura,
você tem que se distrair assim
Ma vez ou outra você se vê sorrir como aos 15
Se entregar a tantos,
tantos anos
à tanta loucura

sábado, 12 de setembro de 2009


senta cá e me escuta, isso pode demorar como pode acontecer rápido demais. então eu me assumo mulher e como sempre me pergunto se realmente sinto algum amor ou se me disponho a amores impossíveis, momentâneos e irremediáveis. depois falo da escassez que me acostumei, da indiferença que devora adentro e por fim, sobre esse ter você. a verdade é que tentei, cara, e como em todas minhas tentativas já era de se esperar acabar afogada na praia - não por culpa sua, talvez por culpa minha, sabe-se lá, o sentimento vai e volta, simples assim, e nós simplesmente já não podiámos ser. não sei se preciso explicar, tudo isso a gente sente enquanto perde os braços. hoje eu escrevo em tom baixo de voz calma, conheço bem esse seu medo de encarar as coisas, mas agora não dá mais não, o barco virou, ou qualquer outra coisa ridícula que dizem por aí. o ponto crítico é bem assim: quando paro e penso, chego na conclusão que sempre fomos completos desnecessários. você nunca precisou da minha dedicação diária mas eu fiz questão de dar até onde eu queria receber. vê? acho que nunca conheci alguém tão impossível.

sabali

As rugas que começam a gritar em teus olhos me encheram o peito de calma. Senti a quietude chegando feito onda - chá de cidreira pra minh’alma andeja..

Meus pés caminharam pacientemente e tive abstrata consciência do gosto de seu beijo em minha nuca lenta. Tua terra, a de todos os santos, me inundou de uma melodia construída com acordes pisados, que mesclamos com a poeira das ruas.
Eu nunca tinha entendido bem, mas percebi que em Cuyabá eu sou versos, em Salvador, avessos.

Então eu trouxe como presente, embrulhado naqueles teus olhares d'almoço, uma insatisfação com a inquietude de meus pés.

m'ensina usar isso?

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Cortou as pontas dos cabelos
e jogou fora o peso que teme mudar
assim, devagar
os cachos que enrolam os anjos
dobrando cabeças nos círculos de espaço
no vento









Eu entendi
as coisas mudaram quando eu joguei em você
a minha imagem retorcida
seguimos avessos e distantes

Não podemos caminhar repartidos
Já somos polarizados para permitir o encaixe
nos instantes felizes em que o medo não existe.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

[thebirdman]

cheguei em casa.
você chegou.
i
b
u
u
u
s
lavei o rosto.
senti o frio de Huambo me descendo a espinha.
o céu despenca  n  d    o    e    m     m      i       m.

[nosso gato preso em seu próprio reflexo na janela
                                                                                           
  e o sol, se pondo no telhado]

pela primeira vez, vi lágrimas. escorrendo. dos meus óculos fundos.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

...Continua...


O dia amanheceu saudoso. Não podíamos mais ser. Acordávamos para a produção em série que é uma segunda-feira de manhã. Eu estava mais para o Chaplin do que para os Tempos Modernos, e o olhar buliçoso dele ao nos reencontrarmos na mesa do café indicava o mesmo.

Ninguém ali queria esquecer o que havia acontecido, mas a carga de memória que abandonamos para sermos, agora estava depositada em cima da mesa, ao lado dos pãezinhos d’água, entre o café e a manteiga, como um monte de correspondência a ler. Ignorada, entre o medo de encarar as coisas, e a dor de modificá-las.

-É possível nos vermos de novo.
- É possível sim.
- Mas não podemos nos tornar amantes. O açúcar, por favor.
- Amantes? Passa-me a faca.
- É uma idéia boba: uma boa idéia, porém, boba. O café ainda está amargo.
- A cuca está ótima. Melhora com manteiga.
- Às vezes eu tenho vontade de pegar o teu pescoço com as duas mãos e sacudi-lo assim, de levinho, repetidamente. Não gostei da cuca.
- Por quê?
- Não sei, porque eu tenho. Talvez seja a finura e a cor de seu pescoço.
- Por que não gostou da cuca?
- Porque eu não gosto de cuca.

...

Seja na ilha de Lemos ou no monte Etno,
ele chora fagulhas.
Outros sorriem em Delfos, sob o santuário.
A mortalha, que a todos abraça, também chora.
Outros sorriem.
Uma chuva de vulcões cospem pétalas vermelhas.
Da cor vermelha.
Vulcano, na sua enorme piedade, chora.
Os outros apenas lançam sorrisos.


Quentes como salamandras.
A minha soberania
é repartida:
o trigo cresce
solto (como o campo
de girassóis que
acompanha o nosso
olhar maduro)

dormimos e sonhamos
em reinos descampados
de esperança

tudo cresce e
o vinhedo verde
cora os dedos
sem futuro.

Já não sabemos
mais forjar
palavras e tratados
nem temos medo
do escuro

o nosso tempo está
contado

o povo sente
esse cantar
profundo
(o vento leva
os dias arrastados
para além
de todo muro)

as flores se misturam

sábado, 5 de setembro de 2009

Souvenir

Tenho meu desjejum entalado
Fui dormir contigo e acordei com outra
Meus braços, pernas e restos de gente se foram
Como tiras de papel ao léo, muy cruel
Quando paro e penso, chego a conclusão:
Será que teu relógio funciona igual ao meu?

[pausa intrigante]

dijo hola y adiós

a quilmes esquenta na taça e os kandjis do jornal mal decoram meus olhos, enquanto escuto sabina cantando..

lo nuestro duró!

.



sexta-feira, 4 de setembro de 2009

nada é perigoso
quando eu aperto meus olhos
nem parou de chover
eu quebrei mais um dente

lá fora as vidas quase pulam o elevado
eu só escuto
bate a gota
fecha a porta
a dor que vem dos próprios
cabelos
desconhece a si mesma

e seus cães não me poderão tocar
não haverá lâmina para joão
ou antônio
cai frio mais um pedaço de ti
sobre a cidade
que acabou de nascer.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Quando você morde minha sombra sinto calafrios na espinha
Me bate um tremor 6 graus na escala richter
Vejo meu mundo desabar
Em claro estado de calamidade pública
Fico desabrigada contando as horas de voltar pra mim
Mas o tempo não melhora e a estimativa é ainda mais catastrófica
Você causa alvoroço
E novamente eu sinto seus dentes me atando a existência
Fico paralisada, paralítica...
sou uma sem-teto, sem-reação
Eu assim desolada, uma sem-endereço, sem-futuro
Preciso de você para reconstruir meu mundo
Para falar que a minha dor é legítima
Se você vai me doar roupas, comida e remédios
Por favor, me mande um vestido estampado por margaridas, um baguncinha e um valium
Essa dor vai ter que valium a pena
Vou precisar também de um abrigo para esse frio na espinha
Melhor, de um guarda-sombras pra eu me precaver desses seus caninos amarelos de café, cigarros e de sorrisos cerrados

domingo, 30 de agosto de 2009

A metaphoric love continua...

Nos encontramos sozinhos enfim, provando cachaça mineira, entre o filtro d’água e a lavanderia. A noite estava quieta, azul marinha, e quase boêmia. Conversávamos como se estivéssemos sós no meio de um salão lotado no carnaval. Confetes coloridos caíam espaçados, animando e doendo a cena. Aquilo já era nostálgico, antes de ter começado.

- Você sabia que o sexo é permitido nos parques de Amsterdã?

- Sério? Se você for pego fazendo sexo em um parque você não é preso por atentado ao pudor ou qualquer outra baixaria.

- Já imaginou isso aqui? Abrir o jornal e dar com a notícia: ‘Sexo é liberado na praia de Ipanema’.

Não deu tempo nem de rir, e ele já estava me beijando. Eu não vi ele se aproximar, eu não vi ele invadir a minha boca, me arrastar para o escuro da lavanderia, segurar as minhas coxas, levantando meu vestido, não vi nenhuma sutileza, e gostei. Já tínhamos sido sutis, agora era outro momento.

As mãos dele nos meus seios, Lânguidas,
a boca no meu pescoço, Palavra
úmida a língua na minha barriga
Suavidade agressiva

A sensação de febre daquele dia me acompanhou por mais uma semana, até que o termômetro de fato indicou 38 graus. O frio que eu sentia provinha da relatividade do calor que eu queimava. Diariamente. Pela lembrança.