sexta-feira, 20 de novembro de 2009

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antes de tudo eu deveria chorar. mas não choro.
a garganta anda em pó. o telefone não sai das mãos nem dos olhos.
sabe que diariamente, mais ou menos às sete da noite, quando atravesso o conjunto nacional e caminho em direção ao ponto de ônibus na frente do teatro, tenho a impressão de que alguém vai passar de carro e atirar em todo mundo, que nem essas coisas que a gente vê no jornal. dá um medo! então me lembro que são só duas ou três gotas de agonia que beijam minha nuca atrevida num calafrio. as pessoas borbulham uma vida cansada alí. daí eu viro as costas pra rua, pq o ônibus sempre demora e eu sei que vai demorar de novo. m'encosto no parapeito que dá pro eixo monumental e a monumentalidade da esplanada me desenha a boca. minha voz corre leve, meio samba do recôncavo, moderna pipoca. quando vejo, geral tá olhando mas sinto que me sinto melhor. acho que isso virou um ritual que independente da dor.
aliás, numa dessas o teatro estava bem cheio, vc estava lá? Eu preferi ir pra casa e escutar teu conselho..
sabe a agonia que eu comentei que senti quando estávamos naquele café, bem no começo..? vc não via meus olhos e eu emudeci tua boca. havia uma inércia em vc que me irritava profundamente... agora a garganta se esconde de novo e a agonia é tanta que ontem cortei as unhas bem curtas. curtas dor de carne. carne dor de curtas. pintei os curtas de vermelho e as carnes de cetim [vermelho, meio abóbora]. me fez lembrar nosso ócio nos tempos do Irish, onde você fotografava minhas mãos e no fundo havia uma parede de livros empoeirados, sem títulos. no meio de nós, silêncio, como se um ruido fosse capaz de entrar como rabisco pela lente da câmera.
me lembrei também de uma noite no café havanna, onde o amarelo das luminárias do balcão, logo atrás de vc, pulou nos meus olhos sorvendo a última lágrima escondida de birra. vc jorrava coisas que me emputeciam. quando cutucou meu silêncio, respondi qu'eu ajustava e desajustava o foco dos meus olhos e de minh'atenção conforme o arrepio da minha pele. vc me achou egoísta, mais do que quando canto aquela música da gal.


mas agora minhas unhas realmente gritam numa dor de carne apertada. descascam. escorrem. derretem nas costas d'outro. como nunca haviam feito. mas essas ruas também nunca dançaram tanto debaixo dos meus pés e meus pés nunca se calaram tanto.


claro, claro que te faço um café. pode ser turco? então me vê aquela xícara branca fazend'um favor? a chaleira pode ser essa mesmo pq na verdade a de cobre eu queimei dia desses, daí joguei fora. é, ironicamente tava lendo o pedaço em que o mahmoud darwich falava sobre o medo de sair nas ruas de Beiruth, naquele cerco de 82. é, pode ser. pra todo mundo? não não, ainda faço xícara por xícara. eu sei que é só mais um ritual, não me importo, pode ir bebendo. insuportável isso de resmungar dos meus rituais. e perdi de comprar todos os roteiros do glauber por cinco reais numa feira de usados perto da estação das barcas pq só tinha cartão no bolso. Sabe de qual'é? [há pouco bebi isso da boca de alguém, mas apostrofo tudo, que é pra ficar mais charmoso. sabe com'é, não perco a mania! e ainda tá meio morna a expressão, por isso não esqueci de todo.]
mas, sabe, no fundo não tenho certeza. ou tenho. ainda não decidi.
ando escutando umas makebas e tal, mas essa vc já perdeu, continuou no seu chico velho e no caetano riscado. podia mudar, mas vc não muda. acho até que brasília nunca me foi tão movimento. minhas fotografias já não te envio por carta, já não serão expressão na parede do seu quarto. verão que vem vou pra cuba, esqueci de dizer, mas dessa vez quem carrega maldita lente sou eu. sem sombras. nem vírgulas.
não. na verdade é arábico, mas se preferir nescafé batido. que nem a gente tomava lá em casa. dáqui qu'eu bato. lembra daquele texto que tentamos gravar, com o camilo? quando ele entrava na sala de uns amigos ferrados, olhava pra suja mesa da cozinha e pensava, no entanto há nescafé! onde há nescafé, há esperança!
acho melhor ir logo, rasga esse papel que não quero saber de voz minha amarelando nos cantos do seu quarto, que aos poucos empalidecerá também los recuerdos de mis cores.
continuarei do lado de cá do telefone. meio sozinha, meio quieta, meio desejo...
quanto à minh'agonia, meu bem?

acho que 'agonia é mesmo a própria feniminidade em si!

[em mim]
[e vc não soub'entender isso]
*fotografia dessas que a gente tira quando o piscar de olhos demora um milésimo de segundo a mais do que deveria durar.

7 comentários:

pedrinha disse...

a nossa fotografia se revela à luz da carne difusa, meu bem.

Sabrina Gahyva disse...

saudades [num sei se suas ou minhas]

Débora Cecília disse...

palmas!

Léo Barbosa disse...

ai katy, vc me leva pra lugares tão conhecidos ... e dá um medo tão morno de velho conhecido que me dá agonia de olhar as paisagens tão comuns .. amo-te coisa linda!

LéoBarba

Juliana disse...

falando em saudade, saudade do leo. nossa.
beijo em voces.

mari dutra disse...

forte e sem açúcar.

Anônimo disse...

mas claro impossível