sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

casmurro

Era segunda-feira e vestíamos o muro com carvão e bolas de sabão. Fazia tempo de derreter,ele dizia que esmalte era perfumaria e eu concordava, como de costume.
Falei sobre os peitos fartos negros enfeitando a noite caída na avenida enquanto ele desaparecia, correndo sobre o suco de limão que lhe calcava os pés. Vi suas costeletas enfeitando o chão da nossa cozinha e no armário, minhas risadas colecionavam pratos de plástico e uma vontade evidente de fechar os furinhos dos dedos.

sábado, 13 de dezembro de 2008

terça-feira, 18 de novembro de 2008

.sinceridade póstuma.


sendo humana

Eu também me canso de gente. Canso de mim... e me canso dos outros. Vou para o último sofá do bar e Injeto altas doses de solidão pra eu voltar a sentir os arrepios. Não nasci pra sorrir todos os dias. Nem acho bonito quem sorri demais. Gosto de cara feia, amassada. É humano ser assim. Cheio de estações. Tem hora pra chover... e se esconder da louca tempestade. E quando for assim pode apostar que em breve vai fazer calor. Ah... ela era exatamente assim. Sabrina!

terça-feira, 21 de outubro de 2008

O nada e as coisas que voam

Até que ponto é possível sentir os sentidos? Foi a pergunta que me puseram hoje a tarde, puseram, impessoal, para não dizer que foram brisas existenciais ou passarinhos sofistas
que vieram desterrar minhas idéias de seu nicho de preguiças por mera intriga, e que de repente agora me vejo tocando meus dedos com meus dedos na estranha esperança de sentir o que meus dedos sentem em relação aos meus dedos, como reflexo que tenta tocar a mim mesmo no espelho.

Aí vem aquelas discussões todas de alteridade, ser o eu do outro, o outro do eu, objetivação do subjetivo e o eu dessubjetivado, essas coisas todas que servem para quem tem egos pequenos demais, eus ilhados, colecionadores de personalidades como borboletas secas e mortas pregadas em quadros de cortiça e com as asas dependuradas, livres, para voarem quando eu empurro ou esbarro sem querer andando pelo estreito corredor da casa. O Munsterberg fala de uma pré-lingüística que acreditava em palavras voadoras que carregavam grandes significados nas costas, e que por isso as dores vertebrais e as palavras tortas.

Vem aí um vôo de significados. Esse vai ser grande, parece que hoje eles vêm em revoada por causa dos ventos alísios do sudeste. Significados por tudo que é canto, e uns pesados demais quebraram a janela do banheiro do vizinho, tomava banho o coitado. Depois voaram de volta, saíram pela mesma janela e acabaram dando no mar, sem maiores prejuízos.

Depois vieram outros, e o próprio Munsterberg, tirando o estorvo das palavras, que agora voam livremente e se encontram com seus significados dentro de nós mesmos, quando não deles, e ouvi dizer que até daqueles outros também. Foi o que ouvi das más línguas. E aí que agora é essa bagunça, substantivos e verbos voando para todos os lados com a leveza de quem não sabe nem se ler, um bando de verbetes analfabetos de si próprios, e paredes chapiscadas e pêlos de cachorro e o cheiro estranho da gaveta do meio do escritório e o meu reflexo ou o seu na frente de mim no espelho que agora deram para não se sentir, cheirar, olhar, que ninguém me percebe mas eu percebo tudo, tudo está dentro de mim e nada está fora, mas eu preciso do nada para sentir o tudo que está dentro. Alguma coisa próxima dos banheiros que dão descarga, lavam as mãos e secam sem que você precise estar lá para cagar.

Eu preciso do nada. Um niilismo que eu não esperava a essa altura, em plena era dos sacos de plástico descartáveis dos mercados e das barras de chocolate feitas sem açúcar, glúten, gordura, lactose ou quaisquer outros ingredientes. Mas talvez por isso mesmo, que seja para acompanhar, que precisar do nada é ecologicamente correto, bom para os dentes, evita que a conversa desande em discussões partidárias, não engorda e cabe em qualquer DVD.

E aí vem o tal passarinho sofista com essa de sentir o que os outros sentem, tato sobre tato, visão sobre visão, como cheirar o nariz alheio, e eu bem que poderia soltar um só sei que nada sei, que por sinal, já é saber bastante dessa humanidade em que o nada já nem é mais tão pouco quanto era em tempos socráticos, se valorizou, foi privatizado e agora se compra em dólar.

sábado, 18 de outubro de 2008

Une mémoire pour l'oubli

Mahmud Darwich falou de café comigo como quem senta na mesa com um estranho sedutoramente aconchegante. Não nos conhecemos bem, fato. No entanto, das folhas velhas do livro que tomei emprestado ontem ele se atirou sobre mim de forma naturalmente bonita.

Há coisas que me forçam a viver sorrateira nesse sertão, já que nem tudo são cores e sons. Às vezes tais cores e sons até lambem as lascas feridas da vida, verdade. Mas nesse caso gritam ardendo de sangue e não consigo tocá-los por cegueira, ora dos ouvidos, ora das mãos.

Acho que é quando caio esquecida no fado.

domingo, 12 de outubro de 2008

O Elogio da Ignorância

Juro, meus caros e minhas caras*, enquanto as 11 páginas suavam ao Sol, o céu mudava, sorrateiro, de paisagem. Me graça é saber que ainda há quem jure que o vermelho é que é a cor de resistência! Pra mim, nunca deixou de ser o azul. Explico, antes de iniciar o capítulo, as nuvens pintavam o céu de branco, repousavam como voluptosos vestidos de noivas transbordando em paz e acalanto. Passando o ensaio, (transcreverei, a seguir, um dedo da prosa da página 66), abaixei meus braços e tirei o livro de teto. Pelo gritar do Sol, o tempo perambulava ponteiro pelo meio-dia. Depois do longa da escuridão, doze horas: tinha sido esse o período que o azul resistira para impor seu totalitarismo.
E não foi coisa à toa não!
Para onde eu, achava, que olhava, via a cor.
Alternava tons, desviava das montanhas, servia de rua para as garças dirigirem-se ao Norte, contornava galhos secos de árvores, girava pálido e intenso perto do distante... mas resistia, insistia, em ser azul.
Só então depois de tentar- sem sucesso, claro- encontra o ponto de fuga entre Erasmo,pós-independência, Laurentina, Tico o poeta, União Soviética, contrutoras chinesas, Pepetela, pinela verde, pastor-alemão e cheiro de peixe-frito**, duvidei se a cor não vagava era a procura duma toninha... toda de espuma... algas como cabelos...
Vai saber!

Apresentador: - O 1º actor está a estragar o enredo. Está a querer encarar um personagem romântico, quando afinal não possui as qualificações necessárias.
1º actor: - Como sabe?
2º actor: - Ora, cheira-se. Basta ver a sua maneira de sentar.
1º actor: - Estou sentado?
2º actor: - Está a representar que está de pé, por isso está sentado. Ou deitado. Ou não está a representar?***


* ou "caras" primeiro e "caros" depois? ou vamos de trocadilho revisto, caras e bundas? O que é mais justo, óh doutores da sabedoria?
** – infelizmente, depois do sino comprovei ser delírio de fome ou de outro professor cozinhando escondido.O almoço de domingo foi servido sem surpresas: funge e feijão –
*** O Cão e os Calús, 1985

sábado, 4 de outubro de 2008



Como de costume trocou o matabichar pelo abraçar que os lençóis ralos supriam até mais tarde. Permaneceu em posição de amamentar até o xadrês de seu pijama desfazer-se em bolhas de sabão estampadas de areia. No exato instante em que o ponteiro marcava cinco minutos para o atraso saiu abafado do quarto, ajeitando os papéis que insistiam festa-tumulto-sincronia dentro da pasta verde oliva, oliveira.

Fitou o invisível que pairava no corredor como se a areia da estampa tocasse sua pele escura. Para subir na cadeira, que compunha sobre uma bicicleta cansada a alegoria de número ímpar do internato, equilibrou-se na religião que pregava nos muros desde que a frente sul-africana rompeu os trilhos do trem o levava ainda guri ao encontro de seus avós em Huambo.

Olhava chão procurando achar tamanho maior para vestir o sorriso até que por fim, no até então, pairou no cimento batido instantes. Como um tapa: espaireceu o acontecimento.

A rara meninice da moça enfeitando uma poça pastosa de amarelidades, perto-viva, diante de suas rodas. As mãos pequenas dela que outrora escondiam castanhos, apalpavam o líquido como se planta flor em carinho de saudade. Compunham as duas um formato fixo inexistente de escorrimento pelas pernas.

Ele ficou silêncio.

Contemplou aquele filme lento fazendo cada quadro tocar as fotografias manchadas de tempo que sua mente desbotava dentro do rim, espalhando-se por tecidos e veias apertadas.
Desceu da cadeira escutando pelos pêlos o barulhinho que as últimas gotas de urina faziam ao danças no piso.

Passou pelo impossível com passos de braços.
Pulsou ares de encharcar.

Sabino sabia que pecado era não provar a existência de Deus.

Fez-se chão junto com a pintura.

Lambeu a ânsia com sufoco.

Bebeu pressa o quente que a fêmea terrou.

Sujou-se de lágrima e ferrugem.

Pela primeira vez naquela existência: ele pôs-se de Sol.

* é dessas que a gente tenta tirar sem flash na frente do palco. Dia do Herói, Coletivo de Artes Ombaka.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

De lá.

Arder dos olhos como em verdade primeira.
Quando nunca antes fosse o sempre mesmo azul?
Assim. Abria em dimensionar cristais o brilho fosco que pesava.
Só imaginação. Os sonhos.
Sempre piscar de querer.
Parecia ver da densa cor de quase ter.
Saber. Fecha tempo céu chuva nuvem turbilhão de mim.
Ainda poderia. Talvez.
Sabia.
Desejo fresco salta em forma qualquer todo pedaço solto daquele mar.
Para além. Tanto horizonte.
Visão de mirar.
Acerto sopro vento-no-cabelo tempo todo sempre agora te tocar.
A mesma onda.
Decifra atlântico aos pés de areia.
Pisar pequeno.
Doce.
Veneno.
Vento passa e deixa o que me tem. Em estar.
Azul. Sereno.

Salgado vem.
Soprar espera dela.
Para ele.

.um diálogo.


– Então começa a rezar, pois somos todos ímpios e impios demais para nos gostar.

– Partimos dos pressupostos errados. Apenas isso.

– E quem vai nos dizer quais são os certos?

– O que eu quero te falar é apenas uma vaga idéia.


Acariciou o cachorro prognata. E se silenciaram antes de iniciar preguiçosamente, mais uma vez, a mesma conversa de ontem.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

just in time

A economia era a ciência de tudo o que também não me interessava espontaneamente desde a meninice. Desde que descobri tal fato venho polindo o belo dom de sentir-me torta na linha da vida. Que é um tracejo feito às coxas conjugando pontilhos vermelhos e minúsculas retas. Sobre isso vou. Um dia talvez eu perceba que nossas vidas, que tanto se cruzam, são só o emaranhado da mesma lã cujas fibras o gato lascou as unhas. E que talvez haja mesmo, acima de nossos devires, uma senhora de óculos e coque grisalho ralhando com o dito gato e cutucando o dedo na agulha grande de tricô. Vai ver essa poeira de estrela que tentamos ser durante a vida não valha mais que um minuto e quarenta de choro sob o piano angustiado de nina.

domingo, 7 de setembro de 2008

Vestiu delicadamente olhos de saudades.
E foi ao seu encontro antes que precipitasse pensamento impedido.
Há dias respirava ares de hoje. E não havia poder resistir.

Os passos perdiam pernas de movimentos automatizados. Não existe estímulo consciente na sistemática do nervosismo.
Os olhos não sabiam de caminho trilhado. Só suprimiam o que souberam revelado por fim.
Ela estava linda como sempre que deixava sorrir sem medo de interpretações.

Imagem liberta segurava a lembrança em existir.
E era alvo e caminho e a pupila desavergonhada se abria a sorrir promessas de nunca mais ir embora.

Em sopro azul em mês de agosto.

sábado, 16 de agosto de 2008

.besta otimismo.


.borrou-me a paixão com os lábios certa vez. a fumaça do cigarro fez-se necessária para atordoar os sentidos ainda anestesiados. os olhos e os cílios, o cabelo e tudo mais. o corpo e o suor e as manhãs.

.um pouco mais, por favor - eu disse sem muitas perspectivas.

.não obtive resposta desde então. apenas acenos com as sobrancelhas e uns risos.


.nada mais.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

- era de um contorno vírgula poente.
- contido.
- to be.
- consumido.
- uma dessas impressões de biblioteca acesa.
- sei.
- mallarmé.
- assim minúsculo [?]
- queríamos desconstruir o discurso com o próprio discurso.
- e o fazíamos.
- em silêncio.
- absolutamente.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Ela alongava as vogais das palavras só para esticar a doçura de seus verbetes. Seus braços negros de extremidades arredondadas eram capazes de amanhecer qualquer quente-sufoco-de-quarto-dos-fundos. Mãe Bida explicava seu nome dizendo que quando era criança-pequena era muito, muuuito: sabida.
Falava de tambores, leis, gente, moeda e manga-rosa com a mesma propriedade que colocava a água para ferver café sobre o fogão.
Sem mais nem porque, depois de uma quinta-feira dessas paridas antes da gestação, acordei com seu sotaque baiano sussurrando em meu pescoço cantigas pra lá de mar. Sua sombra jorrava por minhas veias como se tivéssemos ensaiado nossa pós-modernização. Olhou lânguido para a coreografia que meus cílios expressavam e assobiou com textura de renda alva: “Vamos ver, né, minha filha, o que o axé quer mostrar pra gente, né?”.
Despertei eletricidade, mas tarde demais. Quando tentei ser, Mãe Bida já havia desaparecido.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

.aquarelada vida aquarelada.


.e desde quando aquarelas meus sonhos? desde quando? pára com isso! não és homem o suficiente para isso. me deixa borrar sozinha. cagar, menstruar, chorar, derreter, mijar, foder, cair, sucumbir, decorar, menstruar, chorar, cair, foder, sair, abrir, abraçar, fugir, sentir e muito sentir. tuas tintas, teus pincéis... ah, pára com isso! de que adianta me roubares os Dali, se há milhares de Picasso olhando para mim? anda, pega teus lápis, teus papéis, tuas idéias batidas. anda, apaga tudo. perdeste a chance de recomeçar comigo o esboço que iniciaste outrora.

.e só por isso já fique satisfeito.


.és para mim, como eu sou para ti, apenas uma natureza morta.



*imagem: debuxo de um presente

segunda-feira, 21 de julho de 2008

error

I got a hole in my mind

Quando acho

Que penso

Que sei

O que faço

Acho um espaço

Um vão

Um oco no aço.

O melhor status que o homem pode comprar é a bondade

domingo, 20 de julho de 2008

muito resumidamente says:
ele parte do pensamento de que o ser que não é possível pensar nada maior deve existir necessariamente
e tentar cobrir essa falta de pano com uma estampa qualquer, pra ensurdecer o silêncio ...
quando o assunto acaba. é como usar saia como vestido, né?

sábado, 19 de julho de 2008

Parece que meu assunto
acabou por agora.
A paz não é dos loucos,
dos loucos é a história.

Parece que não são poucos
que reconhecem a glória.
É bom que seja assim mesmo,
por si só faltaria memória.

A paz não é dos loucos,
dos loucos é a história.

sábado, 12 de julho de 2008

day-off pra para

Não peço para descer.
Reviro os olhos procurando rima branca na revolução de corpos magros, cortinas rasgadas e pizza requentada.
Minha vontade é comer pele de onça, só pra antropofagiar o sarau inquieto-descansado-parabólica-flagelos-esfinge que não me abandona a juventude dos ouvidos.
Abracei uma árvore do caminho só pra pingar colírio e coca-cola na fofoca do verde e o azul-céu, que se mexiam frescos comigo enquanto brigavam para meus olhos verem quem é que tinha mais cor.
As milhas ficaram compridas.
As rimas retas e em ângulo de subida caíram sobre a grama- papelão dobrada com tamanho de minuto em promoção.
Acho que senti uma espécie de Deus nesse tempo. Ele dançava com minhas mãos desenhadas com madeira chuvosa. A árvore parodiou nossa falta de matemática retribuindo sombra para refrescarmos a pele dos pés.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

domingo, 6 de julho de 2008

desenhei pontos de fulga no embaçado da janela do carro enquanto voltava para a casa de sobre nome modesto.// as histórias do rolar na lama e do chá de lírios-copo-de-leite tinham exato trazido o vento e cócegas pertinentes ao trecho do veneno, de mais cedo. //eram meus dedos brincando de colocar memória nos olhos// minhas unhas, passearam molhadas sobre a paisagem desfocada, como se nosso lirismo escorregasse na minha falta de mãe./ minhas mãos tomavam banho naquela ameaça de chuva-excessso-pulmões acumulados em ambiente fechado.// o vapor, escorria-me pelos braços correndo em gotículas, entrando de baixo da manga esquerda.// senti a cor da fruta inteira desretinando minhas sombrancelhas por fazer. //

tive vontade de te enxugar.
- imagem: quase ossos ingleses, em Plymouth MA.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Devaneios

Perambulava pela solidão, como quem deseja eternizar a efemeridade das lembranças angustiantes. Mortas, mas ainda mornas. Lamentos já não devolviam a dignidade dos sonhos, que um dia foram mais que alucinações. Só restaram desejos, mas fugazes demais, e livres de resistência, eles também quiseram partir.
Olhando para os respingos de sol que entravam pelas frestas da janela fechada e tocavam o teto sombreado, apenas um pensamento inevitável reluzia dentro do coração. Por que não está chovendo agora? As gotas de precipitação lembravam as lágrimas sempre precipitadas, e davam sentido àquela existência solitária. Não, não era trágico. Estava resignado a seu destino cintilante de uma realização sempre adiada. Seus devaneios tinham sentido.
Tentava ludibriar a si mesmo, mas no fundo sabia. No próximo minuto seu peito seria invadido mais uma vez pelo desespero da espera que nunca chega ao fim.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Não gosto muito de jaca

Ela abriu o coração tão devagarinho
e você vai deixar lá apodrecendo,
feito uma jaca no verão?

terça-feira, 17 de junho de 2008

mis ausencias



En la pereza de un bostezo rozo con uno de mis brazos tu pecho desnudo, que aun no ha despertado de la noche de locura, donde no permitimos que las caricias se apacigüen y disfrutamos del tiempo entre embrollos de piernas y sonrisas llenas de sudor nacido del placer de amarnos, ya uno de tus ojos me miran como tratando de imaginar el porque estoy sentado a lado tuyo, no digo una palabra y alterno mi mirada entre tu cuerpo limpio de mentiras y lleno de sudores pasados, y la ventana que ya dibuja como una televisión el amanecer mas bello, ese que solo se siente cuando uno ha destruido tabús durante la noche, ahora poso mi mano sobre tu cabeza como tratando de evitar que ingreses en esta silenciosa reflexión, pero ya es tarde, ya tu voz rompe como relámpago esta oscuridad mental.

Me doy unos segundos para reaccionar y mientras me levanto solo digo “cuando entenderás mis ausencias”.

Oscar Diego




º º º a Aquarel.la é de Oriol, que entre um café e outro deixava cair nos meus olhos o tremor expressionista de suas mãos que já viveram e desviveram a vida sobre o tectonismo de placas que, para ele, sempre foram puro agenciamentos.

Numa dessas contingências parou em Santa Cruz, assim, quase de graça. Um andejo que, contrariando a corrente migratória dos andarilhos anônimos, possui sua nacionalidade catalàn tatuada à carvão na boca.


http://obresbol.blogspot.com/

sexta-feira, 13 de junho de 2008

.missiva.

.Pasárgada, 12 de maio de dous mil e 8ito.


Estou em Pasárgada há algum tempo convivendo com as noutes que menstruam centelhas de sonhos e sentimentos recíprocos. Iludo o órgão que bombeia sangue para o corpo inane de amor. Ah, amor. Essa é a questão. Peidaram no cordão. Não, isto não é um quarto das letras. Esta mensagem – esta! – é apenas um jornal amassado, desses que se utiliza para embalar peixe em feira ou para forrar os tapetes dos carros semi-novos. Na verdade é um anúncio de prostituta que se deixa beijar na boca para que o cliente leve um pouco de sua solidão sentimental. Não, Gonçalo Leão, esta data não é para se beijar e amar. Amor venal, de novela das 8ito. Ah, pára com isso, oto!

Aqui nesta cidade de poesia as cousas são diferentes. O jazz é mais quadrado, a subversão é uma edição encapada da bíblia – com direito a narração remasterizada de algum âncora global –, as dores são mais doídas – umas vez que aquele Pessoa sugeriu que os leitores sentissem o que ele fingia sentir. Ora, que falta de respeito! Se peidam no cordão, peidam em qualquer lugar, certo? Peidemos nesta data.

Podem dizer que sou amaro, um sujeito criado ao som do pop insosso e anódino deste início de século; podem me acusar de falsidade, de repetir o discurso de uma minoria inexpressiva que ninguém – no fundo – sequer sabe que existe. Enfim, podem dizer ene cousas sobre o fato de eu estar me dispondo a enviar essa missiva para falar mal do amor e do dia dos namorados. Veja bem, Gonçalo Leão, o amor se estrepou. Dizem que foi pular a cerca e caiu arreganhado.

Arame farpado, num teim?

Tiro de espingarda.

Tapa na nuca.

O dia dos namorados é um dia de velório. Compram-se flores e presentes como uma forma de agradecer por nada, elogiar de forma elegante ou convencer alguém sobre sentimentos. O dia dos namorados é uma forma de dar oferendas a uma entidade – deidade, o termo correto – televisionada. Façamos simpatias para o demônio, dancemos sob o efeito de ácido no salão. O samba do amor tem dia e hora para ser celebrado, e só por isso a graça e o prazer de se beijar – e foder, é claro – nascem mortos – ou pelo menos sem a ereção que os homens das cavernas exibiam.

Gonçalo Leão, eu gostei mesmo foi do teu depoimento sobre o Google. Gostei deste sobre o amor e o dia dos namorados, mas como esta data não tem uma barra de rolagem satisfatória, fico com os contratempos de uma pesquisa infundada sobre o sentimento que leva a alcunha de amor.


Cordialmente,
O poeta que finge a dor que deveras sente.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Namorar é preciso


Belíssimo dia pra se falar das coisas relacionadas ao amor neste estranho tempo onde só falta chover canivetes, tamanha a violência que rola por esta terra terrível, terrivelmente aterrorizada pelo sangue que jorra fácil e vermelho, sensacional. Um tom rubro que já foi mais afinado com a suave curvatura de um lábio pintado por um delicado batom. Bom dia, flor do dia.

Seja você homem ou mulher, anatomicamente falando e apenas isso. Fazendo questão de desconsiderar sua orientação sexual, lembre-se que hoje é dia dos namorados.

Dia de beijar. Dia de ser romântico, de falar de amor e, se possível, fazê-lo. Digo fazer, porque o amor é o tipo de coisa que não dá pra gente comprar feito. Coisa que mesmo quando a gente compra, como produto, ainda é preciso submetê-lo a um processo de acabamento, de finalização, pós-produção ou sei lá o que. Ele - o amor - não se encontra disponível pelas prateleiras de nenhuma loja. Tampouco tem preço, embora existam controvérsias. Bom, seja como for, o amor está por aí habitando corações e assediando pelas esquinas da vida e do corpo humano, demasiado humano.

Dia legal para gestos e rituais meigos, carinhosos. Afagos são tropeços bem vindos nesta data em que a rotina precisa ser quebrada pelas razões daquele lugar sem comportamento - o coração, segundo Manoel de Barros. Dia para deixar que o teu corpo se entenda com outro corpo, já que o entendimento entre as almas nem sempre é possível, conforme a Bandeira, o verso, de um outro Manuel. Putz, amor tem tudo a ver com poesia e desconfio que é por isso mesmo que dizem que poesia nunca foi coisa pra se entender, mas sim, pra se sentir. Muito prazer: sinto muito!


Mas, amor, hoje em dia, dizem, tem mais a ver com conta bancária graúda, do que com cabelos mais negros que as asas da graúna. Se há poesia suficiente no amor, em Pasárgada, certamente, existem prostitutas bonitas pra gente namorar que nos desejem e se prestem a ser nosso pão, nossa comida, todo amor que houver nessa vida, e algum remédio que me dê alegria.

Acho que ninguém entende perfeitamente das imperfeições desse sentimento que parece já ter estado mais nos corações do que na moda. Sei lá, mas acho que namorar - uma ação que advém do amor - nestes tempos, soa mais como uma cantata, uma fuga, uma coisinha mais rápida, mais passageira, e que não precisa ser pra sempre, embora seja massa que seja infinita enquanto dure. E sem essa de ser imortal, posto que é chama. Que invente ou inventem outros versos complementares os poetas da hora em que escrevo.

O dia 12 de junho passando e eu aqui a enfiar peido no cordão, a comentar sobre essa coisa que bate no coração e que traz toda a sorte de conseqüências. Na maior viagem. Por falar nisso, diz um ditado lá de Singapura: o amor é a refeição da vida, viajar é a sobremesa. Moral da história: dinheiro não traz felicidade, mas compra passagem. Falei sobre o amor, de passagem, mas não quis brincar com os sentimentos de nenhum João Ninguém que esteja apaixonado por uma Maria Vai Com as Outras.

Namorar, assim como amar, é uma questão de estilo. Já ouvi alguém dizer que a coisa mais importante que existe é saber ser amado e retribuir. Essa recíproca, por si só, já é um belo presente para este dia.

domingo, 8 de junho de 2008

pegadas na floresta


É invasivo entrar sem bater. Acontece que na floresta não há portas e eu queria ir lá. Quis criar meu caminho, mas meus olhos se arregalavam a cada mudança das folhas no chão. O trovão da música que ouvia se misturou com a minha imaginação e meu pescoço girou. No desenho das árvores eu vi ursos de vários tamanhos e cores. Um deles descansava com o filho na sombra. Outro dava gargalhadas relembrando o dia em que se perdeu na floresta. Um casal tomava café e a última cena que vi foi o abraço. Eu achei melhor não dar boa tarde dessa vez.

Aqui você vê pedaços do céu, recortado entre os galhos e as folhas. O rio não quis parar pra eu passar. Eu sentei pra falar com ele e ele continuou a molhar com águas tão diferentes aquela mesma pedra verde. Só agora eu entendo a altura de algumas árvores. As mais baixas não gostam de ver apenas o céu. É que aqui em baixo tem raízes. O vento daqui fez carícias em mim. Eu não fiz restrições e ele entrou debaixo da minha roupa, resgando o peito. Ele ainda está aqui. Acho que não sai mais. É a primeira vez que guardo um pedaço do vento.

Eu posso ver as migalhas de pão que João e Maria deixaram pelo caminho. São eternas nesse lugar. Continuei a andar e meus cds eu deixei na mochila e a minha cabeça eu abandonei no balanço.

sábado, 7 de junho de 2008

wewillgotonewyorkcityandokdoyouhavee-mail?

Não sei se para economizar ou para acumular, mas gosto mesmo é de beber em copo abandonado. Desenhar a boca que deixou o resto de cerveja quente sobre a mesa. Imaginar as histórias que a garganta contava enquanto engolia gelado. Posso sentir a metáfora caindo-me goela abaixo. Com os dedos abençoando as unhas, fico tentando descobrir se a espuma seca sobre a borda era dor de traição de família ou de órfã prostituta comemorando formatura. O cheiro dos insetos, trazidos pela primavera, levaram-me, até lá. Eram besouros, abelhas, moscas, aranhas e libélulas intermináveis espalhando acidez e barulhinhos de papel manteiga, até a flor. Não era a primeira vez que as rosas pintavam minha retina naqueles dias quatro. Entrei no quarto e quase tropecei na bagunça abandono que pairava ali entre aquelas três camas figurativas. Usei assopro adormecido para limpar as asas secas que repousavam sobre o lençol amassado de tempo. Sentei-me na de número vontade e olhei para a caixinha de madeira que descansava sobre a mesa de cabeceira. Como quem promete e não cumpre, espalhei o segredo e a abri: mais uma espécie! Dessa vez, vestindo preto e branco. Colada sobre a parte interna da tampa. Escondia uma Honduras pintada à mão pingando, sobre fotos de infância. A invasão doeu-me os pêlos. Cocei o nariz para conferir se o velho das imagens poderia naquele momento abrandar minha pena. Mas só senti perfume do dia anterior. A partir daquele respiro era cronologicamente impossível alterar o astrológico dos tais insetos. Então, olhei para a janela e me enxerguei na cegueira madeira. Estava ali: branca, borrada, cócegas. Refletida em vidro sujo de areia. Brincando. Com as moedas, pedras e conchas que ele guardara separadamente em sacolas de plástico durante suas viagens com o circo. Compreendi num susto o que a jornalista portuguesa disse, sentada de costas para a floresta que gritava, sobre a indiferença que tem o viver do sobreviver.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

aspas

"bolo de cenoura com confetes em cima em agradecimento... dividir sentimentos que surgem na claridade da noite é feito algemas, porque me encanta, me intriga... fico naquela de querer ser você pra saber como pintas com os teclados conjuntos de letras tão fundos, por se dizerem profundos. assim a troca de lirismos já basta, exclui o beijo, o sexo, a carne. só nào ultrapassa os olhos... ah menina bonita dos cabelos curtos. talvez fosse melhor se você nunca pintasse seus lábios de vermelho, pra deixar a sua cor sempre tão viva... não me canso de ler você... nas fotos, nos textos, na noite, no claro, no buraco, na montanha, bem no alto da montanha...amo... sem complicação. não falo de amor pra todas as pessoas. mas pra você saiu assim... sem precisar de nada... apenas do suco de laranja na madrugada"


** as palavras que não são minhas encontrei escritas num pedaço de asa de borboleta enquanto caminhava esverdeada pela montanha. não resisti e fotografei. por causa da luz ou do horário não sei, não consegui captar o sapato vermelho com bolinhas que se mexiam que ela trazia na espécie de pés.

prestígiocomsucodefrutadeplásticoemdianubladoseiláoquê

ia a pé pelos sertões do norte vendendo sonhos.dormia perto da saída para prevenir a cãibra nos pés caso quisesse partir na madrugada tinta de vinho.andava em círculos mesmo sabendo que no inverno é no quadrado que o sol se põe.na ponta da língua, tinha expressões que até dicionário duvida. seus braços nos meus eram como gavetas que escondem diários cheirando a mofo.contei-lhe sobre o arrepio que a falta de cabelo me dava. no boteco perto da rodoviária nos saudamos e pegamos o onibus 25. que ia sem rumo para uma certa américa do sul.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

.masturbação.



.confessei um ou outro erro aqui e acolá. disse que olhava de quando em vez para as saias que passavam mostrando pernas torneadas e toda libido sob calcinhas bordadas. mas era raro eu perder o controle da situação. meus olhos vermelhos não me faziam voar mais, e a âncora sentimental que ela jogou em meu peito fez do meu pieguismo um cais seguro.

.lembro quando ela marcou o encontro no motel afastado da cidade. não entendi, pois éramos desde sempre afastados do mundo. lembro que líamos os clássicos, discutíamos besteiras e bebíamos vinho barato para desbaratinar as retinas cansadas das palavras convenientes. lembro de tanta cousa agora, mas na hora não consegui lembrar do nosso encontro fugaz para o mais sincero amor: o vazio dos quadris, o gosto amargo do corpo.

.encontrei apenas um bilhete dela. e no espelho do banheiro ela escreveu de batom que o prazer solitário era melhor que a minha falta de ar na hora do gozo. percebi que ela ficou deveras chateada.


.mas não era para tanto.

sábado, 24 de maio de 2008

eu preciso
de um companheiro
mas eu viajo muito,
e não posso ter um cão.

mas eu chego aqui
e voce me diz essas coisas,
me dá vontade
de ver o corinthians ser campeão.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

a gente é barulho de beijo esperando. espaçando. um roxo de compasso e incenso. esquecimento encolhido. a gente é verso e mentira / eu conto das mãos que apertam a minha sem força pra esconder os calos. o grosso que ferramenta a pele. o duro que rompe os dedos e forma semi-dedos. deformados. manchados de tinta branca/ e ele escuta tudo com violão e aulas de inglês na cabeça / ele quer ser gato/ e eu miado.

domingo, 18 de maio de 2008

Paseo por una Isla llena de ti**


Las copas me llevaron a acariciar un cuerpo parecido al tuyo, en un principio pensé que había encontrado a la sucesión perfecta de tu vacío, me vi con esta escultura caminando por las mismas calles que acompañaron a nuestros pasos, me vi volando con las fantasías que tu nunca lograste ver por que te tenia demasiada preocupada el gobierno de izquierda, o tal ves el color de los zapatos de quienes no teníamos interés en que combinen con nuestras camisetas, me vi soñando miles de besos, con este pedazo de nube que de seguro acolchonaría alguna de esas caídas que suelo tener cuando pienso en el pasado y más aun en el futuro, esas que hasta hoy solo tu y yo conocíamos.

Empecé por rozar sus labios con los míos y sentí que ese candor solo podía existir en una mujer que te ama y te respeta, unos labios tan parecidos a los tuyos que también preferí dejar la recitación del 7 de Rayuela para la siguiente vez, ya que de haberlo hecho tal ves le hubiera dado mas solemnidad a un momento netamente casual; seguí bajando por su cuello, así como a ti te gustaba, así como cuando conseguía que perdieras la razón y te olvidaras de todos tus miedos a dios y sus tremendas represalias por amarme a destiempo y sin ley, suavemente recorrí ese pequeño cuenco que se forma en el lugar exacto de unión entre el cuello y el pecho, ese lugar donde mis manos pasaron tratando de darle alguna explicación lógica, Seguí bajando y me encontré con su pecho perfecto como las dos gotas de leche que tienes tu, ideal para poder pasar mi boca y mis dientes tratando de descubrir algo mas que su desnudez, logre sentir tu olor, el mismo que salía del espacio que quedaba entre el oriente y el occidente de tu pecho, ese olor a pudor pero que dulcemente se mezclaba con el vino tinto, estabas en cada una de las caricias que salían de mis manos, y en cada uno de los gemidos que conseguí arrancar a esta falsa tú. La noche duro lo mismo que lo que duraba con tu cuerpo, un cerrar de ojos, la transpiración de un encuentro furtivo y un abrir de ojos con recriminaciones y silencios.

Por suerte la mañana se fue con ella o ella con la mañana, solo queda el olor de su cuerpo encaramado en este sueño y su compañía.

Por suerte el amanecer se fue con ella, ya no soportaba seguir pensando en ti.

**Oscar Diego



Oscar é um desses cronópio tranquilos com o qual esbarramos na rua e nos apaixonamos num segundo. Mas é fácil perdê-lo de vista, pois num segundo segundo ele voa daí pra Quito, e num terceiro, pode reaparecer cantarolando Silvio Rodrigues na praça de San Ignacio de Velasco

Fala que sempre busca samba aqui com a gente, espero que agora fique e nos traga trovas na língua

sábado, 17 de maio de 2008

Estou quase

Estou quase,
quase terminando as páginas
deste caderno.

Estou no inferno:
sem dinheiro ou vagina;
estou quase, você imagina.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

mon manege a moi

Não tardou até pensar pairando em chuva e em vontade de abraçar o vento torto. Queria tirar a energia do tempo só pra ele perder a existência. Alongava seus anos para que o início e o fim se tocassem, formando uma espécie de areia.
Pra se orientar.
Escutava conselhos como quem mente. A cada respiração, entrava em seu próprio esquecimento. Seus dias agora eram alternâncias de barulho
e suas horas duravam a vida de uma música.
Estava reinventando o B do pseudônimo pra se aproximar do personagem.
Nessa falta de instantes, permitia que a loucura lambesse seu toque.
Ora com peso de piano, ora com peso de estalar de dedos.
Era. Só.............Fluência.
*getty, né.

terça-feira, 22 de abril de 2008

- blá...
- blá, blá, blá...
- blá! blá! blá! blá!!!
- blá,blá, blá, blá, blá!!!!!!!
- blá...láb! blá bál? blá. lbá, lbá, álb,ábl!!
- Tú és poesia demais para mim.
- Puta que pariu! Pega na minha lira e balança.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Bicho preguiça


As coisas que caem do céu
alimentam meu sonho
contra as dificuldades da vida.
Não sei de onde saiu
ou quem foi que inventou
essa história de vida dura,
.......................de ralação.
Quero aparar num abraço
a estrela cadente
e marcar com um X
o meu mais desejoso porvir.
Quero o prazer espontâneo do trabalho
em minha impressão digital.
O resto
é chope com colarinho
sorvete com cereja
e bicho preguiça
no horóscopo chinês.
E tem mais...
Tinha. Fazer novos versos
e encompridar o poema
vai cansar demais
a minha beleza.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Sempre que esqueço de tirar as lentes de contato pra dormir eles falam comigo. Dessa vez, vieram numa espécie de nave invisível. Racharam meu dente da frente em dois pedaços de simetria distorcida - no exato momento em que eu tentava entender o acontecido olhando fixo para o espelho embaçado de banho. Naquele instante sofri cada estalo que a rede de fissuras fazia no cálcio. No fundo, minha célula Maria previa que as adversidades que me submeti naqueles anos de casamento mais cedo ou mais tarde me fariam aperto. Comecei a entrevista olhando fixo para o caminhão estacionado na calçada. Ele tinha 23 anos, fugiu do diploma de advogado em Tókio e me contou que tinha dois irmãos e uma írmã. Gostava de filmes de comédia, estudou russo na Rússia, jogava um tal Handebol. O barulho era ruído e não consegui compreender sua opinião sobre a emancipação dos índios de Dakota. Nesse exato momento senti meus dedos dos pés acendendo e apagando. Saí para fumar o cigarro que tinha encontrado em cima da pia do banheiro daquela Whisky a Go Go vermelho-medo e outro bicho entrou na estória. Era o senhor do tempo e da rua. Me pediu um trago. Na hora de entregar o meio-fio de fogo, vi a sujeira em seu nariz e peguei a chave que ele trazia no bolso do casaco emprestada. Naquela noite tinha saído a pé só pra sentir o vento de inverno despedindo-se, despindo-me. Mesmo assim peguei a chave. Sabia que as moedas e o olhar pelo retrovisor da estrada não era uma piada para japonês ver. Que a música talvez não estivesse tão alta. Que talvez eu nao tenha acertado levantando a mão durante o culto. Okay. Enguli umas duas ou três lembranças e voltei pra casa. Invisível. Meia manhã depois, abri os olhos sobre a setença roxa do meu quarto. Escutei a risada do vento. Ao invés de ar dançando, vi lá fora uma árvore com quase primavera nos galhos dizendo preu voltar. Com ela.

domingo, 6 de abril de 2008

Saia



E Deus criou o homem. Mas o homem andava muito borocoxô... Só naquela posição de pensador bêbado.
Aí Deus criou a mulher. Mas mesmo assim o homem não percebeu como que aquilo poderia melhorar. Homem nunca percebe estas coisas, imagine então o primeiro deles.
A mulher andava triste e nua pelo paraíso, sem ninguém para lhe assobiar o balanço. Nem construção civil havia para encher o ego dela... Desesperada e sem filhos, aos 30 e poucos, Eva tinha a mais poderosa combinação "fenótipo/ genótipo" até então. Seus hormônios ferviam e fermentavam de tesão por Adão.
Deus não entendia o que estava acontecendo:
- Porque não te multiplicas, mulher?!
- Tento de tudo, mas nada parece chamar atenção dele, ó pai. Ele fica lá pensando, parado e murcho... não posso mexer naquilo que não é meu.
- Precisas provocar o homem, minha filha, não deixa ele pensar... ele será todo teu quando o sangue faltar ao raciocínio.
- Ok...ok... Acho que agora entendo o que dizes, Senhor.
- Queres uma maçã para ajudar?
- Não, não... Dá-me uma saia que resolvo :-)

terça-feira, 1 de abril de 2008

me deixa


o que é que você pensa
que vai encontrar na minha poesia?
o que você procura em meus versos?
o que você quer do meu eu poeta?
ora, francamente...
vai procurar o que fazer
e larga mão da minha poesia.
.......................me deixa!
quero ficar sozinho,
que poeta é bicho solitário:
eu e minha poesia nos bastamos,
somos bastantes e bastardos
dentro e fora do mundo

..............lugar comum.

..............me deixa...
deixa eu encher sua cabeça
.......................de versos
.......................e minhocas.

*Medusa de Caravaggio ilustra este poema... poetas podem até ter minhocas na cabeça, mas no reino das palavras são cobras criadas...

segunda-feira, 31 de março de 2008

passei a semana com a minha infância - e ela riu de mim - e eu também ri dela

domingo, 30 de março de 2008

Balcão



O balcão de um bar é um dos melhores lugares para se estar. Existe algo de maduro em ficar encostado ali mamando. Talvez sejam as banquetas altas, inalcansáveis e perigosas para uma criança, mas alguma coisa me diz que isso tem mais a ver com postura de quem ali fica. São os cotovelos apoiados, os pés longe do chão (como se fosse uma criança) e, principalmente, a mobilidade rotacional, que permite a quem ali se instala uma gama de possibilidades sociais que vão muito além do que qualquer limitada "mesa de boteco". Quem senta num balcão não tem foco:

- Tem fogo?

O balcão é como um altar, bebe-se o salário pois não há nada de melhor a fazer com o dinheiro, seja quanto for. São créditos sociais sacrificados com euforia e isso é indispensavelmente necessário para viver. Cada garrafa na estante guarda anos de inteligência cultural destilada ou fermentada. Doses só podem ser negociadas de maneira justa para ambas as partes ali, no balcão:

- Completa! Por favor...

O balcão atende aos taciturnos, aos estrangeiros, aos estranhos, aos tímidos. Todos os tipos de drinks para todos os tipos de alcólatras. Cada um com seu estilo de vida, personalidade e atitude (atitude, cara!), requisitos sem os quais não se deve sentar num balcão. O balcão é a porta de uma conversa. Porta de entrada e porta de saída. À direita ou à esquerda, para o salão ou para o bar: tudo em volta não teria sentido se não houvesse balcão. Ninguém está sozinho - e nem quer ficar sozinho - quando se encosta no balcão de um bar. Nem mesmo um barman tomando um bourbon no final do expediente. Para ele o balcão é o limite entre trabalho e hedonismo. Quando vai beber, senta-se fora e isso tem razão de ser. Mesmo que ele odeie ser barman, isso nunca vai deixá-lo longe de um balcão. O balcão não tem nada a ver com isso:

- Última rodada!

O balcão é onde vícios e virtudes se confundem no discurso. O balcão é a esperança de esperar que algo aconteça, que alguém te conheça. O balcão é onde se fica à vontade para ser como você é, sem se importar com seu próprio humor. Afinal, o balcão é a casa dos humores, é lá que tudo pode mudar. O balcão parece um filme.

quarta-feira, 26 de março de 2008

quintal cerrado

Impregnada de poeira lúdica, passeei pela rua de tua antiga casa. Ainda que sob os mesmo alicerces e aparentemente imóvel, havia um quê de não-ser naquele cimento.

Pensei na vontade amarela que teve ela um dia. Suas paredes ficaram com um amarelo ensurdecedor de olhos. Quando ia te chamar pra brincar de elástico a avistava de longe e já dava arrepios. Parecia que a cor vibrava na gente. E corríamos pro sentido dela.

Então parei ali na frente com a poeira do corpo aumentada e senti, entre seus vários devires de tons, que o de agora, de crescidos que estão meus olhos, é o mais singelo.

A falta de cor no reboco me faz pensar no brilho que ela, a casa, não carrega mais. Mas ao invés de vê-la com o descaso do tempo na tinta velha nem-branca-nem-cinza vejo bem é um elogio sublime.

É que ela emprestou as linhas que a contornava e a destacava do horizonte, lá do fundo, para o contorcimento das árvores, que cresceram ali com a gente. É o quintal que contém o cerrado que nos criou. É o cerrado que agora salta aos meus olhos com a alegria de um marrom descascado que berra.
.
.
.
*letras com meus dedos e os de Marcel Garcia.

terça-feira, 25 de março de 2008

domingo, 23 de março de 2008

sambando se goza desse mundo

eu fujo dele sempre.
o lirismo dele me sufoca,
de tao bonito que é.
e não aguento dois dias seguidos imersa nisso.
é muita explosão.

preciso postar isso agora, posso?
pode
Not even my dog I feel like petting...

sábado, 22 de março de 2008


Una vez, Goga me disse: Alguns dias doem mais que outros. Hoje foi um dia de recordações. Ao acordar, constatei a data santa. Imediatamente lembrei-me dos Cerrados e de quando comemos pastéis envenenados de carne na quaresma (D. Fochesatto delatou tal episódio em seus escritos) numa espelunca voltando da propriedade dos Botello. Era o último dia, o último suspiro da quaresma. Antes, vimos árvores de garrafas de cerveja, assassinamos um sapo (isso realmente ocorreu) colocando-o numa arapuca e arremessando uma pedra de dois quilos sobre sua cabeça. Lembrei-me de Pardal, e suas mãos que se encaixam nas de qualquer um que entenda os sânscritos de Dioi. Lembrei-me de Dioi. No fim do dia, tomei um bourbon sozinho, de frente do pro oceano. Não me senti pequeno, pelo contrário, me senti grande pra cacete. Porque eu senti, assim, de verdade mesmo, que carregava toda a fita, todo o lance, toda a vivaldice, todo o pixotismo exacerbado de todos com quem trombei nos últimos dias. Foram muitos, foram insanos, foram únicos, foram loucos de morder os próprios dentes, sem os dentes (como caldos de mocotó - sem mocotó).


-pausa-



Vallegrand,

o que me leva até você é o que me leva ao desmedido,
até a falcatrua nata da minha alma diante da sua
adiante.

o que me leva até você é o que me leva puro,
até a crua verdade. frio, cru, você nunca fica nu?
adiante

Vallegrand,

quando é cedo demais para nascermos de novo
quando você envelheceu
e eu nem pude fazê-lo.

minha palavra favorita que não me ensinaram na escola
queria dizer
o mesmo que eu,
e eram
folhas secas

adiante.

quarta-feira, 19 de março de 2008

April

Os ombros suportam o mundo
- Carlos Drummond de Andrade -

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

** É que hoje só consegui falar Drummond. A terapia zapatista cessou. Minha verbalização - a (in) consciência, a parede pintada de uma cor diferente a cada mês, a culpa ocidental- está arrumando as malas e volvendo. Para o México. Antes que se enterre em um horta ecologicamente correta na Itália, Grécia ou Gana, prometo que bebo um pouco mais da nossa loucura. Vestirei vermelho e mulher. Para desenhar na parede do cárcere e caminhar perguntando. Gracias. Hasta siempre, Puta Revolucion!

segunda-feira, 17 de março de 2008

Ah! O amor...



Nenhum homem
sabe o pior de uma mulher.
Nenhuma mulher
sabe o pior de um homem.

Só quero que me encantes
com teus grandes sonhos,
que teus medos eu espante
com gracejos risonhos.

Será o amor parecido?
Será p'ra sempre escondido?
De jeito por vezes estranho,
chegando de brilho tacanho
ou cegando fosse explodido?

Se meu íntimo te entende,
se teu ritmo me rende,
se tu expandes minha mente,
se tua presença me deixa quente,
o que será que sentes?

*desta vez a ilustra é nostra
Estou com saudades
de ter um rosto melhor.
Sinto a maior falta
de um bom senso de humor;
mas o que me faz desastre humano
é falta de sexo,
ou amor.

A Fantasma Vermelha



Volta e meia ela aparece:
uma fantasma vermelha,
de lábios vermelhos...
Tocando violão,
me tocando,
dizendo que me ama,
me chamando p'ra viajar,
me apelidando com carinho,
lavando meus pés cansados,
despindo-se a dançar,
felando-me...
engolindo meu prazer.

Volta e meia aparece
uma fantasma vermelha
e eu sei porque ela morreu.

quarta-feira, 12 de março de 2008

papa-peixe

demais de quente
é a cara de cuyabá
e a previsão do tempo.
sombra pr'amarrar égua
e rimar co'água fresca
pppppppppor aqui
é + qu'expressão idiomática.
na próxima encarnação,
se deus quiser e eu continuar
pppppppppppppor estas bandas
hei de nascer martim-pescador.
g
g
g
*A ilustração é o próprio martim-pescador e o poema é dedicado à saudade que sabrina sente do nosso calor

sábado, 8 de março de 2008

Simples[cidade]


Atropelei um caminhão e quase morri de rir. Olhei por dentro do meio-fio e reconheci Van Gogh jogando cartas com Gauguin. Eles batucavam Bjork numa espécie de caixa de fósforos de acender incêndios. Recriavam a criação repetindo fonemas disfarços de cadeira de rodas enquanto eu procurava doação de café quente. Meia milha adiante, sangrando carne e tinta acrílica fez-se barulho do encontro entre céu e roubo. Cento e vinte dialetos depois, dividimos nossas manchas na mesma esquina, ressecando os lábios e esperando o ônibus. Daquele minuto até antes fomos asfalto preto e branco procurando cócegas no centro do sustenido.
..
.
* Retrato da tarde passada em uma rua horizontal de Providence.

quinta-feira, 6 de março de 2008

http://www.youtube.com/watch?v=ZViXPqZyUNc





Vermelho. Tudo o quê eu lembro com mais clareza, tudo que não ficou turvo nas minhas lembranças, é o vermelho. O vermelho intenso que eu podia ver nos ombros dela, no pescoço dela, nela. Era incrível como exalava perfeitamente a cor. A sensação era nítida como a de um perfume, e ela se misturava a atmosfera densa de fumaça e cantos escuros,numa amalgáma hipnótica. O olhar morto não lhe tirava a vida e volúpia,nem um pouco. Mas a distanciava de todos,principalmente de mim. Era como se ela fosse intocável, e estivesse muito, mas muito distânte, e ainda assim, próxima demais. Bebia angústia, não álcool. Dava para se perder ao tentar imaginar oquê estava pensando. Esperava por alguém? Ou tentava esquecer? Eu podia ter descoberto, se ela não tivesse levantado e saído, antes mesmo de terminar de beber aquela solidão toda. Antes mesmo que eu conseguisse chegar mais perto.

segunda-feira, 3 de março de 2008

.retalho.


.antes de ir fez cócegas no céu da boca de alguém, e roubou ignotas estrelas de uma constelação qualquer.

.pouco importa.

sábado, 1 de março de 2008

Embromation (lágrima)

o que é uma lágrima
diante da imensidão do oceano?
quer saber...?
pergunte ao mar
que ele se encarrega de embromar


Ilustração googlada desse mundão virtual

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Mister Sade

socos e pontapés
no corpo a corpo
sob a direção do Marquês de Sade.
sexo da cabeça aos pés
de cabra safado.
não sei sonhar
com a noite que não virá.
não há mais
uma gota de sangue
em cada poema.
mmverborrágica hemorragia
mmmmmmgritos...
mmsussurros glossolálicos.
eu me amarro em você
amarrada na cama,
mmmmmmamordaçada
xxxxxxxxxxvvvvvdddddddddxsadomasoquista.

Ilustração: Geoffrey Rush e Kate Winslet em “Contos Proibidos do Marquês de Sade”, de Philip Kaufman.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Bela Vista

O verde nas paredes do corredor eram como pôr-do-sol envelhecendo o tempo. Enquanto as formas se alternavam pulando nuvens, a pele preta tentava entender os movimentos bruscos vindos da luz rompendo espíritos enferrujados que perambulavam pela terra vermelha de tônicos sotaques e donos contados. No sofá, não enxuguei o suor dos olhos. Queria sentir a dor nas células. O sal do corpo era a única forma de encurtar as centenas de anos que nos distanciavam. Uma volta de relógio sem pilha e o vidro azulado seguia. Sem sair do lugar. Congelava o que os álbuns de fotografias escondem quando pintam a página, de branco. E então, procurei a música que as crianças dançavam para esquecer a tal ausência de estômago. Só encontrei um pedaço de unha usada. Que mastiguei. Com os dentes de um sorriso intacto.
l
l
* Fotografia de um certo Henri Fabian que adora Los Hermanos.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

deus


a idéia que tenho de deus
é como um sujeito
que saiu pra comprar cigarros
e depois
ffffffffffff...
não é que eu seja
um ateu convicto, ou à toa.
o problema todo
é que eu também fui,
bbbbbbbbbbcom ele,
comprar os malditos cigarros.
dizem que deus é bom e é pai
e eu sempre gostei
de andar muito bem acompanhado.

Ilustração: fotografia do escritor, dramaturgo e cineasta José Agrippino de Paula, falecido ano passado, guru sacramentado da Tropicália que, convenhamos, tem um certo ar de divindade na imagem

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Parodiando Fernando Pessoa na caruda, sem respeito, pé no peito, com estilo Jorge Ben...


Eu quero quer sempre aquilo com quem eu simpatizo,
e eu torno-me sempre, mais cedo ou mais tarde aquilo com quem eu simpatizo.
E eu simpatizo com tudo.
São-me simpáticas as mulheres superiores porque são superiores,
e são-me simpáticas as mulheres inferiores porque são superiores tanto,
porque ser inferior é diferente de ser superior,
e isso é uma superioridade a certos momentos de visão.
Eu simpatizo com algumas mulheres pelas suas qualidades de caráter
com outras eu simpatizo pela falta dessas mesmas qualidades
e com outras ainda eu simpatizo por simpatizar com elas
porque eu sou rei, absoluto na minha simpatia
basta que ela exista para que eu tenha razão de ser!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Sem Calcinha


você chegou sem calcinha
e me deixou perplexo.
confundiu-me o sexo
e que confusão essa minha.
a noite é sempre parda
num quarto de motel.
momento é tempo que não tarda
como as estrelas no céu.
andei procurando o meu esperma,
a tinta muito prazer/amor,
pra lambuzar sua perna.
o poeta precisa regar a flor
e ficar sempre pronto
para um próximo encontro.


Ilustração: "Maja Desnuda" de Francisco Goya

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

.geografia da saudade.


Deixei as lembranças que nutro por ele sedimentarem no meu humilde riacho de memórias. A água estava turva no início, mas logo podia se distinguir o antes e o depois, sendo que o presente límpido refletia a todo momento um futuro menos tenso. De quando em vez eu jogava uma moeda no riacho pedindo qualquer cousa, só para ver a poeira sentimental se agitar um pouco. Só para dar aquela falta de ar angustiante, triste. Só para ter a impressão de ter visto um reflexo de algo que a gente perde e que, num relance, acha que encontrou.

Eu empurrava a minha vida com a barriga. Era um coma consciente e adrede sem poesia, uma queda. Deixava uma foto dele no altar das lembranças mais bonitas. Mas eu evitava olhar para seus olhos ou mesmo encarar o seu riso sincero e fácil. Era uma alegria lancinante, ingênua. Era como um prêmio recebido que, sem alternativas, era cultuado platonicamente por mim.

A água ficou turva de novo quando, por descuido ou instinto mal controlado, abri o baú no qual eu escondia alguns sentimentos, algumas palavras não ditas e dous ou três amplexos não sufocados. Suspirei, prendi a respiração o quanto pude para ver se o choro se engasgava, para ver se as lágrimas desaguavam numa outra represa. Meu istmo para com ele não mais estava submerso, e eu podia tão-simplesmente atravessá-lo – mesmo que sabendo das dores.

Meu filho. Agora a saudade emergia mais forte ainda. Cinco meses apenas sem ele. A água turva das minhas memórias era demasiado salgada para que eu simplesmente afundasse. Eu me afogo aos poucos, pois não há salva-vidas contra a maré da saudade.




*Imagem: mãos da Bonfim quando numa cachoeira na Chapada.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Fuga


Ela acaba de subir pelas paredes! Grita a avó assustada. Que faremos, minha filha, agora que ela se irritou com o Zé? Não se sabia ao certo, mas sentia-se, no ar frio de um dia chuvoso, que a agônica Estória se mesclava com o Absurdo e escorria por uma pontinha quebrada do quadrado da loucura. Apaixonada e não correspondida, dizem que atravessou às pressas por debaixo da perna do P e puxou para trás o braço do A manuscrito. Coitados! Gemeram de dor, disseram os vizinhos. Assim, despindo-se de cada letra oral que a compunha, derretia-se em suor e medo. Evaporava-se um pouco em cada boca que passava, mentindo e aumentando o gozo. Depois de um tempo a avó, já de toca caida, encontrou os resquício de seus dizeres numa gota de lágrima que restava gorda sem fonema algum em cima de um carro cinza, despejada no tempo, ao léu.


*fotografia, Uri Carrasco

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

É que eu tenho um pouco de pássaro. Que passa.
Descobri isso hoje, quando vi um esquilo-tigre-tatu-bolinha.
Ele atravessou a rua sem olhar para atrás, até
fazer-se árvore no pardo da falta de folhas.
Depois olhei para o lado e uma espécie de rio.
Ria.
Meio molhado.
Meio congelado.
'
Assobiei, pingando a paisagem.
Em cima de um verbo.
De agramática.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Faxina

-precisou chover pra água se sujar.
como é que ela vai se lavar?
-chuva é faxina de São Pedro
e no céu tá tudo sempre limpo (?)
-mas porque é que os santos
........ jogam sua sujeira
pras almas que necessitam de pureza?
-isso eu não sei.
pergunte a uma mãe de santo!


*Ilustração "As lágrimas de São Pedro", de El Greco

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

ainda bem. como de costume ela apareceu. rasgando. arrombando a retina, de que vê.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Pássaros



mPreciso imitar
mnnnnnnno canto dos passarinhos
mmmmmmmmantes que comece a brilhar
aaaaaaaaaaaaaakkkkkkkkkkkkkkka manhã.
mmmmmmmm Antes que um sabiá sem graça
kkkkkkkkkkkencha o seu peito laranjeira
lllllllllllllllllle o saco deste notívago.
pppppppNa forma de um poema
ooooooooesta é a minha versão
aaaaaammmmmmmmbípede emplumada
ooollllllllllllllllllllllllllllllllooodo amanhecer o’clock
zzzzzzzzzzzzzzlllllllll. . .
mmmmmmmmmmhitchcock

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Dama de Joguetes



Don Fernão estava apaixonado por uma dama que gostava de joguetes. Numa dessas, quase caiu no duelo com um nobre brother. Este distinto amigo, também estava encantado pela fria e cruel donzela, que jamais poderia se apaixonar por um deles. Ela gostava de se divertir! Uma desavença entre os dois teria sido tão patética quanto estas palavras de don Fernão em dias de tormenta por este causo:

Parte I

O tanto que te quero
é o tanto que me rasgas
O tempo passa meus meses
e parece, às vezes,
que será o mais cruel.

Cruel pouco é bobagem,
tem uns caminhos
que às vezes eu sinto,
quase nos olhos,
lacrimejantes de pensar
que se fosse uma batalha
queria escolher meus inimigos,
pelo menos...

Parece que quem escolhe
também tem que deixar o caminho escolher
e nisso um pouco morre
em favor de um amor
que se queira viver.

De onde eu tiro a guia
que vai me mostrar
a força mais suave!?
que me dê só o equilíbrio
de converter defesa em golpe,
de converter tristeza
em boa sorte.
Conceber-te em beijo forte.

Parte II

O duelo será
uma partida de tênis
um destro, um sinistro
um de rápida, um de lenta,
lado grama, lado saibro
duelarei que não me sobro
e tua imagem me alenta.

Um não safará do coração
muito partido
e temo pelo meu,
mas não tem mais volta
tenho um compromisso com a vida.

Imagem de Abigail Kamelhair

café


domingo, 13 de janeiro de 2008

Mambembe


No tratado das impossibilidades o reencontro dançava com uma poeira meio sem vento encostada nas molduras de nada; no canto da sexta-feira, em um desses bazares de estórias fantásticas. Ainda assim, naquela janela de sinestesias simultâneas, o tato aconteceu. Duas noites antes que toda a mobília da casa chegasse.
Faltava pouco para ela entrar em estado de assopro quando percorreu o tal enredo. Sentiu um ímpeto arcaico. Sentiu a falta da perna esquerda. Do peito. Dos cílios. Das asas.
Seu poema que esperava para nascer comendo vitelo de tempo já estava ali: parido por ele. Do avesso e em ordem crescente. A descoberta lunática de água no choro, a ponte sem rio embaixo e a notícia uma semana depois estampada na foto maiúscula do único jornal de São se Não do Norte, brincavam de ciranda na falta de papel.
Na cozinha de chão, o bule sem nada dentro, o ranço da manteiga e os farelos de pão dormido assistiram ao fato dentro de um silêncio estático. Era o mesmíssimo listrado encardido de toalha de mesa enrolada em seus corpos foscos.
Não era tango como outrora. Era cantiga de ninar com acordes de salsa num parágrafo rouco que dava cócegas na língua.
Gargalhando refrões de fevereiro na boca e na cintura, os dois anteciparam o carnaval dividindo o mesmo trem, torto - que estava cinco minutos atrasado para lugar algum.