quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

.première.


Emoldurou uma ou outra imagem na memória e partiu. Antes de mais nada, partiu-se em dous. Quebrado, sem escrúpulos e esperanças falsas, partiu rumo a algum ateliê cujas obras estavam incompletas. Queria ser tinta e tela, esboço e nanquim. Manchou o percurso com esmero, olhar atento aos detalhes. Passos cansados, com o peso de um envelhecimento precoce e pueril. Curvado em sua insignificância cotidiana. O olhar adjetivado percorria cada centímetro cinza, cada curva jeitosa que lhe passava perfumada. Mas era tudo muito sem graça. Sentia-se num filme mudo sem trilha sonora, apenas os ruídos desnecessários marcando o tempo quadrado, o quatro por quatro que o incomodava tanto. Sete por oito que era, queria explorar novos andamentos, mas perdera o rumo. Não havia volta mais para aquelas imagens devidamente eternizadas em sua memória que estavam fadadas a mofarem, a ficarem devidamente empoeiradas. Toda a composição, as cores dodecafônicas... O inconsciente o enganava a todo instante: piadas disso e daquilo, saudades deste e daquela. Quando menos esperava, caía nas curvas lascivas de cor morena, no olhar bonito e inebriante de quem faz malabares com o sorriso. Sabia que quando menos esperasse, por descuido ou excessiva saudade, iria relembrar fatos para sentir falta de ar ou ter uma vontade qualquer de chorar.

Com o olhar perdido em algum ponto de fuga, procurava sempre a linha do horizonte para iniciar novos traços, mas voltava sempre ao mesmo debuxo, ao mesmo pontilhado que trança o pensamento e costura de forma aleatória todas as lembranças. Estas, como é cediço, são assim mesmo: dispostas de tal maneira que é impossível criar um filme lógico. A edição é precária, ainda mais quando se sente tamanha saudade ou dor de cotovelo ou de cabeça ou unha encravada.

O lançamento vai ser eternamente adiado. Quem sabe cancele todo o projeto de première. Talvez nem versão pirata tenha. aspasFracassoaspas, conclui sinceramente a si mesmo.

3 comentários:

pedrinha disse...

era a película, que teima resistir, sobre a imagem virtual.

Sabrina Gahyva disse...

aos sábados. já vendi os ingressos.

Salamandra Malandra disse...

um tanto de aspas entrou pela minha narina esquerda. engasguei com sofreguidão, para só depois sorrir diante do sinal vermelho, que dizia: não pare, não pare.