domingo, 30 de março de 2008

Balcão



O balcão de um bar é um dos melhores lugares para se estar. Existe algo de maduro em ficar encostado ali mamando. Talvez sejam as banquetas altas, inalcansáveis e perigosas para uma criança, mas alguma coisa me diz que isso tem mais a ver com postura de quem ali fica. São os cotovelos apoiados, os pés longe do chão (como se fosse uma criança) e, principalmente, a mobilidade rotacional, que permite a quem ali se instala uma gama de possibilidades sociais que vão muito além do que qualquer limitada "mesa de boteco". Quem senta num balcão não tem foco:

- Tem fogo?

O balcão é como um altar, bebe-se o salário pois não há nada de melhor a fazer com o dinheiro, seja quanto for. São créditos sociais sacrificados com euforia e isso é indispensavelmente necessário para viver. Cada garrafa na estante guarda anos de inteligência cultural destilada ou fermentada. Doses só podem ser negociadas de maneira justa para ambas as partes ali, no balcão:

- Completa! Por favor...

O balcão atende aos taciturnos, aos estrangeiros, aos estranhos, aos tímidos. Todos os tipos de drinks para todos os tipos de alcólatras. Cada um com seu estilo de vida, personalidade e atitude (atitude, cara!), requisitos sem os quais não se deve sentar num balcão. O balcão é a porta de uma conversa. Porta de entrada e porta de saída. À direita ou à esquerda, para o salão ou para o bar: tudo em volta não teria sentido se não houvesse balcão. Ninguém está sozinho - e nem quer ficar sozinho - quando se encosta no balcão de um bar. Nem mesmo um barman tomando um bourbon no final do expediente. Para ele o balcão é o limite entre trabalho e hedonismo. Quando vai beber, senta-se fora e isso tem razão de ser. Mesmo que ele odeie ser barman, isso nunca vai deixá-lo longe de um balcão. O balcão não tem nada a ver com isso:

- Última rodada!

O balcão é onde vícios e virtudes se confundem no discurso. O balcão é a esperança de esperar que algo aconteça, que alguém te conheça. O balcão é onde se fica à vontade para ser como você é, sem se importar com seu próprio humor. Afinal, o balcão é a casa dos humores, é lá que tudo pode mudar. O balcão parece um filme.

Um comentário:

Sabrina Gahyva disse...

belas palavras pra estampar com tinta emprestada um guardanapo pedido - aqui os créditos sobem na hora de compartilhar o cigarro e o fogo do lado de fora - uma porta longe do balcão - debaixo do céu manchado de estrelas e escuro -