quarta-feira, 19 de março de 2008

April

Os ombros suportam o mundo
- Carlos Drummond de Andrade -

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

** É que hoje só consegui falar Drummond. A terapia zapatista cessou. Minha verbalização - a (in) consciência, a parede pintada de uma cor diferente a cada mês, a culpa ocidental- está arrumando as malas e volvendo. Para o México. Antes que se enterre em um horta ecologicamente correta na Itália, Grécia ou Gana, prometo que bebo um pouco mais da nossa loucura. Vestirei vermelho e mulher. Para desenhar na parede do cárcere e caminhar perguntando. Gracias. Hasta siempre, Puta Revolucion!

4 comentários:

Don Fernão disse...

Muito obrigado, minha cara amiga, pela lembrança deste poema! Foi o melhor "remédio de alma" que eu poderia administrar neste presente momento-desespero...

Sabrina Gahyva disse...

Ô Don. Neste presente momento-desespero também compartilho o direito de estar viva e permanecer calada.

Katyussa Veiga disse...

teu pedido de socorro chegou, envolveu minha fumaça desorientada.

assoprei um pouco dela no teu email pra ver se vc entende o sentido

Katyussa Veiga disse...

na verdade assoprei uma falta de rigor que também caminha perguntando, a duras penas, quando a analista se ausenta.