domingo, 13 de janeiro de 2008

Mambembe


No tratado das impossibilidades o reencontro dançava com uma poeira meio sem vento encostada nas molduras de nada; no canto da sexta-feira, em um desses bazares de estórias fantásticas. Ainda assim, naquela janela de sinestesias simultâneas, o tato aconteceu. Duas noites antes que toda a mobília da casa chegasse.
Faltava pouco para ela entrar em estado de assopro quando percorreu o tal enredo. Sentiu um ímpeto arcaico. Sentiu a falta da perna esquerda. Do peito. Dos cílios. Das asas.
Seu poema que esperava para nascer comendo vitelo de tempo já estava ali: parido por ele. Do avesso e em ordem crescente. A descoberta lunática de água no choro, a ponte sem rio embaixo e a notícia uma semana depois estampada na foto maiúscula do único jornal de São se Não do Norte, brincavam de ciranda na falta de papel.
Na cozinha de chão, o bule sem nada dentro, o ranço da manteiga e os farelos de pão dormido assistiram ao fato dentro de um silêncio estático. Era o mesmíssimo listrado encardido de toalha de mesa enrolada em seus corpos foscos.
Não era tango como outrora. Era cantiga de ninar com acordes de salsa num parágrafo rouco que dava cócegas na língua.
Gargalhando refrões de fevereiro na boca e na cintura, os dois anteciparam o carnaval dividindo o mesmo trem, torto - que estava cinco minutos atrasado para lugar algum.

4 comentários:

katyussa veiga disse...

acho que mordi o mote

Sabrina Gahyva disse...

nem arroz doce duvida dessa sua astúcia estomacal, cátia.
vc aumenta meus sons. aumenta.

c qué vê escuta disse...

Qdo senti meus dentes se abraçando, sabia q isso era caracolar seu.
poeira meio sem vento?
mobília entrar em estado de assopro?
Quero mesmo é estar em São se Não do Norte, pra brincar de ciranda na falta de vc

Sabrina Gahyva disse...

Meu assopro entrou em estado de ciranda e ventei que era falta sua.
Brinquei de poeira e senti o estar em você.