quinta-feira, 13 de maio de 2010

Epi Fânia

- Olha o velinho comendo uma goiaba enorme!

Ela me disse isso como se comentasse sobre o aumento da tarifa taximétrica.

Linda e breve, ela interrompia a estereotipia da rotina deplorável com as suas percepções insólitas. A naturalidade em descobrir a poética da exatidão mínima me enchiam de tesão. Quanto mais ingênuo, mais transcendental era o sexo, mais eu me transformava em algo que não era eu. Não pude mais aturar e, a partir desse dia, eu a apelidei de Epifania.

O trovão parecia anunciar a guerra,

algo desmoronava

próximo Dali.

O medo pervertido subia pelo lençol que mal tocava os pêlos

E o corpo que mal tocava os pêlos, desmembrava flutuante,

Espectrando o ego


Na volta para casa, figuras míticas, putas, trabalhadores, apostadores. Todos seguiam o cheiro da noite, cada um no seu rastro. Eram onze horas. Ainda não é madrugada e o breu ainda reflete os olhos cansados de crianças sonolentas. Em breve, ele será o desenho das pupilas desejantes da boemia que se espalha por toda cidade. A boca da noite engolia os corpos, nos tornando um bolo estomacal antes de transformar-nos em merdas arrastando-se pelas artérias de São Paulo iluminada pelo lusco-fusco.

- Merda ao sol é um espetáculo quase tão lindo e raro quanto Aurora Boreal!

Eu tentava escovar os dentes, livrar a boca do bouquet da ressaca, enquanto ela refletia sobre o raio de sol exato que transformava o marrom da merda em um tipo de dourado escuro, cobre.

2 comentários:

pedrinha disse...

conta mais, quero mais!

árvore disse...

vendo engulidor de noite, usado.