Evitou tocar o caderno por alguns dias.
Mas as palavras no peito aos sábios ensinam
sobre as cores, o olhar.
Então voltou, pediu para abrir
a janela
e empostou a voz de pássaro
que entende o ar.
Pequeno vagan aprendera o mimo de voar
e voltara
para a primavera do riso
e os cochilos na rede
azul
da sacada
entre os céus.
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
INELUDÍVEL

pOR vICTOR mELONI
A saudade era intensa. Provocava aquela dor característica, que pressiona de dentro para fora, resultando numa angustia indelével. Por quanto tempo? Quem é que sabe dizê-lo...Noites em claro, dias absorta nas águas calmas, mas aflitivas, desta sensação cruciante. Conversava contigo em todos os meus momentos de solidão. E eram muitos, pois as companhias não preenchiam o vazio provocado. Tu foste aos poucos, mas assim mesmo não consegui me preparar. Acho que ninguém o consegue. Quando o paroxismo da dor chegou, naquela madrugada fria, sem teu calor, busquei o desespero e encontrei-o facilmente. Exortou-me, vesano, lógico, a alcançar aquela peça macia, que tu adoravas, e colocá-la sob o travesseiro que rescindia, ainda, tua essência. Dobrei-a com esmero e a pus embaixo deste. Encostei a cabeça, plena de anseios e esperanças, fechei os olhos e pedi. Fervorosamente pedi. Implorei com a força dos corações feridos. Adormeci. Acordei com um sopro calmo em meu rosto. A fragrância adocicada fez com que um laivo de satisfação fosse expresso em meus lábios. Abri os olhos e você estava lá, em pé, curvado sobre meu corpo hirto. Mas seu sorriso! Seus olhos! Não, não era para ser assim! O que está fazendo? Pare com isto! Não! Não fui culpada! O quê? Como descobriu? Não foi importante! É você quem amo! Tire este sorriso do rosto! Por que estes olhos? Como? Estava esperando? Não! O que eu fiz? Meu Deus! A dor do rancor é imperscrutável. Em nosso egoísmo, esquecemos que a paixão do outro também sofre de saudade.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
.première.

Emoldurou uma ou outra imagem na memória e partiu. Antes de mais nada, partiu-se em dous. Quebrado, sem escrúpulos e esperanças falsas, partiu rumo a algum ateliê cujas obras estavam incompletas. Queria ser tinta e tela, esboço e nanquim. Manchou o percurso com esmero, olhar atento aos detalhes. Passos cansados, com o peso de um envelhecimento precoce e pueril. Curvado em sua insignificância cotidiana. O olhar adjetivado percorria cada centímetro cinza, cada curva jeitosa que lhe passava perfumada. Mas era tudo muito sem graça. Sentia-se num filme mudo sem trilha sonora, apenas os ruídos desnecessários marcando o tempo quadrado, o quatro por quatro que o incomodava tanto. Sete por oito que era, queria explorar novos andamentos, mas perdera o rumo. Não havia volta mais para aquelas imagens devidamente eternizadas em sua memória que estavam fadadas a mofarem, a ficarem devidamente empoeiradas. Toda a composição, as cores dodecafônicas... O inconsciente o enganava a todo instante: piadas disso e daquilo, saudades deste e daquela. Quando menos esperava, caía nas curvas lascivas de cor morena, no olhar bonito e inebriante de quem faz malabares com o sorriso. Sabia que quando menos esperasse, por descuido ou excessiva saudade, iria relembrar fatos para sentir falta de ar ou ter uma vontade qualquer de chorar.
Com o olhar perdido em algum ponto de fuga, procurava sempre a linha do horizonte para iniciar novos traços, mas voltava sempre ao mesmo debuxo, ao mesmo pontilhado que trança o pensamento e costura de forma aleatória todas as lembranças. Estas, como é cediço, são assim mesmo: dispostas de tal maneira que é impossível criar um filme lógico. A edição é precária, ainda mais quando se sente tamanha saudade ou dor de cotovelo ou de cabeça ou unha encravada.
Com o olhar perdido em algum ponto de fuga, procurava sempre a linha do horizonte para iniciar novos traços, mas voltava sempre ao mesmo debuxo, ao mesmo pontilhado que trança o pensamento e costura de forma aleatória todas as lembranças. Estas, como é cediço, são assim mesmo: dispostas de tal maneira que é impossível criar um filme lógico. A edição é precária, ainda mais quando se sente tamanha saudade ou dor de cotovelo ou de cabeça ou unha encravada.
O lançamento vai ser eternamente adiado. Quem sabe cancele todo o projeto de première. Talvez nem versão pirata tenha. aspasFracassoaspas, conclui sinceramente a si mesmo.
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