sábado, 30 de abril de 2011

Foi assim que o matei



O céu estava prestes a partir-se. Eu aguardava que dele caíssem pedaços estrondosos e consistentes, como o barulho que os trovões premeditavam. Por ora soavam graves, como se uma rachadura percorresse toda a extensão do céu. Por ora soavam tão agudos como se uma delgada peça de cristal tivesse sido lançada violentamente contra o chão.

O caldo grosso gotejava corpulento por sobre o telhado cor de aurora. Os pingos ávidos refletiam o piscar do céu, para, logo em seguida, tornarem-se novamente transparentes.

Meus três meses de Neruda haviam se encerrado. Me despedia de Neruda como se ele houvesse morrido no instante que fechei suas memórias. As minhas lágrimas escorriam junto com a chuva imperatriz, como se houvesse cumplicidade entre elas.

A luz dos raios também era conduzida pela salinidade das lágrimas do meu rosto, que abandonava sua luminosidade diáfana momentaneamente para colorir-se de um prateado númbico, que quase me cegava.

Me despedia não só de Pablo, me despedia de você. As fantasias e o ideal romântico, tão ingênuo e frustrante, escorria rastejante, dissolvendo-se pela pedra clara do chão da calçada. Não existia rancor, não existia saudade, era só uma interpérie de realidade que me sacolejava dizendo-me que não existia foguete capaz de alçá-lo a distância mais que lunar que meus sonhos te levaram. Você se transformou em moléculas rarefeitas no infinito disparatado do meu espectro.

3 comentários:

pedrinha disse...

"Y yo, mínimo ser,
ebrio del gran vacío
constelado,
a semejanza, a imagen
del misterio,
me sentí parte pura
del abismo,

rodé con las estrellas,
mi corazón se desató en el viento"

de Pablito, el tuyo, en Memorial de Isla Negra

Sabrina disse...

molhei

Salamandra Malandra disse...

sequei com pantufas.