domingo, 21 de março de 2010

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Ella pensara ser pó, passando incólme pelos corpos que lhe atravessavam engolindo vozes, sopros, cores carcomidas, enferrujadas de rua. Gozava silenciosamente num deleite despretensioso, enquanto assoviava o desapontamento com o mundo. Aos poucos, de tanto andar pelos cantos das ruas, onde carro e gente se mesclava a suor e libido, foi adquirindo desejo de espaço. Suas pernas se alongaram mais que em passos costumeiros. De tanto observar, uma vontade de saber tomou-lhe o pulso e o mundo cortou-lhe a pele com a sinceridade d’un fado que chora. Sobrevivente aprendeu a cultivar o desapego tomando as pessoas por discursos e os corpos por contos. Aceitou que as costas dadas após o sexo é puro movimento. ‘decir adiós es crecer’.

Naquela noite tocaram-se as pernas. Seu joelho apertava docemente seu membro enquanto sua língua lhe dizia que dali não sairia silente nem incólume. Sua boca morosamente mordia a orelha fria daquele menino, cujo único som que soprara até então fora o click de sua câmera, na rua, quando se encontraram e a partir de quando começaram a caminhar subindo e descendo desatinadas e frias ladeiras. Seus corpos, por algumas féculas de segundos, mediram-se, desenhando uma linha que coleava entre o desejo e a cumplicidade de duas forte existências.
"Y mirá que apenas nos conocíamos y ya la vida urdía lo necesario para
desencontrarnos minuciosamente."
J.C.
Rayuela, cap. 1
[entre las calles y los puentes, diría yo!]

2 comentários:

Sabrina Gahyva disse...

daquele mijo unico som que soprara

Salamandra Malandra disse...

quase me desfaço do meu quimo.