terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Coisa pequena

Aquela pedrinha entrou em mi casa sem pedir licença.
entrou e ficou ali, pelo chão, a me olhar.
escolheu a sola do meu pé pra morar.
e por ali ficou.
até que a água a levou.

Lívia Vermelha

Leve você levita
num vestido
que a veste
da beleza
invariável
de cada dia teu.

Vem e vai
com o vento
que se inventou
para ventilar o pensamento
de quem vê o vulto teu.

Sorri
com a força
da gravidade
gravíssima
que seduz quem ouve
o vinho e taça
tintos de tua voz.

Teu olho prolixo
delata sorrindo
a menina da tua feição
desposando a mulher
maldosamente escondida
na tua razão.

Preenchendo-se
explode em lava e libido
como um vulcão...
uma papoula
violenta e veloz
que entorpece
quem aspira
teu aroma.

E além de
tudo ama
e vultua
tua cabeça e alheias
venosas e vivas.
Tua alma tem o dom
de ser exata, perfeita, rubra...
sã e insana.

Revela uma guria rara
enquanto vela uma mulher paulistana.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Lamento


Passa ela o dia com a pele untada entre o calor dos doces em grandes tachos e a frieza da água ensaboando os olhos, enquanto pra cidade sai ele. Leva mochila pesada de sonhos e preocupações. Pensa, lê um folheto que vez ou outra lhe dão na estação e dorme no escuro longo da madrugada que resta. Quando chega os olhos já suportam levemente a carga de cada ladrilho como um lamento borincano. Sem que ninguém escute, cavuca despedaçando a mente e reordenando prioritariamente qual será o pacote do dia pra casa. Pão, leite, lápiz, carne... Vez e outra chora. Se distrai no almoço com a lembrança do que pediu o guri e da lista grande na porta da geladeira. Na ordem da necessidade, mulher, tenho prendido fogo no peito e soltado fatidicamente minha desdicha na sua boca cafeinada!

Hoje pobre e contente decidiu por um vestido curto de xita azul. Dolorida, a mente pediu um trago de conhaque pra esquentar a vida com a secura de um gole ardido. Um modo de esquecer o café da manhã de amanhã. No bar ao lado da casa a moeda diminuída raspou no grossor dos calos pra cair sofrida no balcão. Na porta, em voz enfeitada e larga, como um disfarce pro seu silêncio triste, ela tirou a mochila de suas costas pesadas e colocou o vestido bem passado na cama, enquanto ele a abraçava atrevidamente devagar por detrás tampando suavemente sua boca.

¡Ahora que te mueres con tus pesares, mujer, déjame que te cante yo también!