- Ontem eu morri 13 vezes minha irmã...
- Não conte seus sonhos, eles podem ouvir. Veja, estão todos com os dentes sedentos por um pedaço de sua pizza suada de costa a costa.
- Proteja-me.
- Protejo-te.
As duas irmãs, uma maratonista e uma fräulein, discutiam o sabor dos ventos, pisavam o mundo em pantufas de algodão doce e corriam pela única via asfaltada da pequena cidadela das 13 pessoas.
Mas uma delas tinha morrido?
ninguém sabia ao certo, todos temiam uma resposta direta.
- Conte-me seus sonhos.
- Eles são concâvos.
- Devem ser lindos.
- São rendilhados, disso eu sei.
- Ontem eu sonhei com você 13 vezes minha irmã. Caíamos de pernas cruzadas do 13 andar do único prédio em pé que se fazia ver naquela cidadela...
- quem nos acompanhava?
- Éramos só nos dois.
- Caíamos com elegância?
- Imagino que sim. Você ainda sente as dores?
- Sinto os sabores.
Reminiscências estão sempre a acompanhar àqueles que se atrevem a sonhar com os olhos abertos. Aquele que quer um pouco mais do que o céu, a terra e a alma... aquele que almeja o sucesso... aquele...
FADE
- Você me contou segredos durante o sono?
- Te contei amenidades. Coisas sobre árvores ululantes, montanhas mágicas pensadas por Mann, coisas poucas...
- Promete me proteger da pomba estúpida que vive a sujar nossos poleiros?
- Dela e de seu criador, aquele velho ranzinza que vive a derrubar aviões e a criar desastres para que os ignorantes acreditem nele.
- Graças a natureza eu acredito nas suas promessas.
- Beije-me a palma da testa.
- Beijo-te a alma, minha grande irmã.
As duas irmãs se davbam as mãos porque eram duas irmãs. Se fossem três, a natureza as espancaria. Três irmãs nunca devem andar de mãos dadas. É a lei.
- Percebes que somos agora 12, antes 13?
- O que o futuro nos reserva?
- Uma quiromante, penso eu.
- Minha alma está um tanto seca, penso em parir uma cachoeira.
- Peçamos a mamãe permissão?
- Mamãe está morta. Mamãe morreu. Mamãe é um cadáver de útero seco.
- Ainda bem que temos um pai, ou não temos?
- Não sejas otimista...
O otimismo tirou-lhes as lentes e os tímpanos.
Só lhes sobraram a distância da pomba estúpida, que nem pomba era, era um artifício religioso.
Fräulein e maratona eram felizes. Comiam pizza, caíam de pernas cruzadas, atiravam em pombas da paz e tinham a mãe morta e o pai ausente.
Desta vez elas dormiram felizes, e puderam sonhar seus sonhos concâvos.
segunda-feira, 22 de março de 2010
domingo, 21 de março de 2010
Irmã
pensei que fossem seus os meus saltos de agulha fincada em cada ferida imposta. Quase cai dura (caso mais abaixo pudesse ir) quando me questionou se andava eu por acaso com pantufas em tempo integral. Pra ser sincera parei de andar há 13 anos. Acidente de percurso. Coisa gravíssima, cerca de 800 mil vítimas. Fatalmente mortas. Carbonizadas de sol. Mais de um milhão e meio de pés fincados em lama frutada, tinto seco (perfeito com pizza e outras refeições de plástico rápidas). Pra ser sincera parei de andar há 13 anos. Acidente de percurso. Não reclamo mais nem do calor. Alias, todo dia ao meio dia desenho um mapa com os caminhos que o escorrer do suor faz no rosto lateral descendo pelo corredor da nuca até desaguar soberbo potássio nos cantos das costas. Agora mudando de assunto. Meu estado quase saiu dos nervos quando me deparei com a composição que você carrega desde o batismo. Pensei em perguntar onde seus pais ou a escrivã do velho cartório completaram o colegial. Mas me lembrei da época em que jogávamos dominó em nebulosas e nos contemplávamos com abertura de firmas, registro de cnpj e massagem nos pés.
Pra ser sincera parei de andar há 13 anos.
Acidente de percurso.
Irmã
...
Ella pensara ser pó, passando incólme pelos corpos que lhe atravessavam engolindo vozes, sopros, cores carcomidas, enferrujadas de rua. Gozava silenciosamente num deleite despretensioso, enquanto assoviava o desapontamento com o mundo. Aos poucos, de tanto andar pelos cantos das ruas, onde carro e gente se mesclava a suor e libido, foi adquirindo desejo de espaço. Suas pernas se alongaram mais que em passos costumeiros. De tanto observar, uma vontade de saber tomou-lhe o pulso e o mundo cortou-lhe a pele com a sinceridade d’un fado que chora. Sobrevivente aprendeu a cultivar o desapego tomando as pessoas por discursos e os corpos por contos. Aceitou que as costas dadas após o sexo é puro movimento. ‘decir adiós es crecer’.
Naquela noite tocaram-se as pernas. Seu joelho apertava docemente seu membro enquanto sua língua lhe dizia que dali não sairia silente nem incólume. Sua boca morosamente mordia a orelha fria daquele menino, cujo único som que soprara até então fora o click de sua câmera, na rua, quando se encontraram e a partir de quando começaram a caminhar subindo e descendo desatinadas e frias ladeiras. Seus corpos, por algumas féculas de segundos, mediram-se, desenhando uma linha que coleava entre o desejo e a cumplicidade de duas forte existências.
"Y mirá que apenas nos conocíamos y ya la vida urdía lo necesario para
desencontrarnos minuciosamente."
J.C.
Rayuela, cap. 1
[entre las calles y los puentes, diría yo!]
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