terça-feira, 8 de setembro de 2009

...Continua...


O dia amanheceu saudoso. Não podíamos mais ser. Acordávamos para a produção em série que é uma segunda-feira de manhã. Eu estava mais para o Chaplin do que para os Tempos Modernos, e o olhar buliçoso dele ao nos reencontrarmos na mesa do café indicava o mesmo.

Ninguém ali queria esquecer o que havia acontecido, mas a carga de memória que abandonamos para sermos, agora estava depositada em cima da mesa, ao lado dos pãezinhos d’água, entre o café e a manteiga, como um monte de correspondência a ler. Ignorada, entre o medo de encarar as coisas, e a dor de modificá-las.

-É possível nos vermos de novo.
- É possível sim.
- Mas não podemos nos tornar amantes. O açúcar, por favor.
- Amantes? Passa-me a faca.
- É uma idéia boba: uma boa idéia, porém, boba. O café ainda está amargo.
- A cuca está ótima. Melhora com manteiga.
- Às vezes eu tenho vontade de pegar o teu pescoço com as duas mãos e sacudi-lo assim, de levinho, repetidamente. Não gostei da cuca.
- Por quê?
- Não sei, porque eu tenho. Talvez seja a finura e a cor de seu pescoço.
- Por que não gostou da cuca?
- Porque eu não gosto de cuca.

...

Seja na ilha de Lemos ou no monte Etno,
ele chora fagulhas.
Outros sorriem em Delfos, sob o santuário.
A mortalha, que a todos abraça, também chora.
Outros sorriem.
Uma chuva de vulcões cospem pétalas vermelhas.
Da cor vermelha.
Vulcano, na sua enorme piedade, chora.
Os outros apenas lançam sorrisos.


Quentes como salamandras.
A minha soberania
é repartida:
o trigo cresce
solto (como o campo
de girassóis que
acompanha o nosso
olhar maduro)

dormimos e sonhamos
em reinos descampados
de esperança

tudo cresce e
o vinhedo verde
cora os dedos
sem futuro.

Já não sabemos
mais forjar
palavras e tratados
nem temos medo
do escuro

o nosso tempo está
contado

o povo sente
esse cantar
profundo
(o vento leva
os dias arrastados
para além
de todo muro)

as flores se misturam